Clausura aumenta riscos à saúde dos mineiros no Chile

Grupo de homens presos em jazida ao norte do Chile tem grandes chances de contrair doenças respiratórias e digestivas graves

Lívia Machado, iG São Paulo |

O impacto psicológico , neste momento, tende a ser o menor dos riscos à saúde dos 33 mineiros presos em um abrigo de 50 metros quadrados, a quase 700 metros de profundidade, em uma mina ao norte do Chile. O acidente aconteceu em 5 de agosto na pequena mina de ouro e cobre de San José, em pleno deserto do Atacama, a cerca de 800 quilômetros ao norte de Santiago.

AP
Imagem de Florencio Avalos, um dos 33 mineiros presos no colapso da mina de San Jose, aparece em TV perto da jazida em Copiapó, Chile
Longe das condições ideais de umidade, luz solar, ventilação e higiene, o risco de contaminação por vírus, bactérias e fungos no grupo de chilenos torna-se cada dia mais elevado.

Pneumonia, viroses respiratórias, tuberculose, infecção orgânica generalizada e diarreia encabeçam a lista das doenças mais prevalentes, afirma Gilberto Archero Amaral, presidente do Departamento de Medicina do Trabalho da Associação Paulista. “Nessas condições, a proliferação e riscos de contaminação entre pessoas isoladas em um ambiente onde não há circulação de ar, tampouco condições mínimas de higiene, é muito elevada.”

Para caracterizar um quadro de desnutrição aguda, são necessários apenas quatro dias de desidratação intensa, calor e falta de alimentação, disse Amaral. Atum e água a cada 48 horas foi a combinação precária que sustentou os 33 homens até conseguirem estabelecer comunicação com as equipes de resgate do país, após 17 dias presos na jazida.

O especialista explica que a necessidade imediata é enviar compostos alimentícios ricos em proteínas e carboidratos para sustentar o organismo, além de medicamentos que possam, de alguma forma, proteger ou recuperar o estômago. Nessas situações de estresse elevado, o órgão é o alvo mais freqüente. Todo o processo de isolamento até o resgate pode desencadear úlceras ou gastrites.

Abrão Cury, clínico-geral do Hospital do Coração de São Paulo (HCor), explica que a alimentação líquida não tem contraindicação e pode ser utilizada por tempo indeterminado. A intolerância a esse tipo de composto, porém, não raramente provoca diarreia.

“Nesse espaço muito reduzido, se um dos homens tiver qualquer problema digestivo, gástrico, o risco de contaminação nos demais é grande. Quatro meses é muito tempo para viver nessas condições . É preciso que haja um suporte médico e nutricional extremamente bem feito.”

A dieta desse grupo, acredita o especialista, deve ter como base uma ingestão de 1,8 mil a 2 mil calorias por dia. Sem noção e referência de tempo, é preciso que esses homens recebam instruções de como usar os medicamentos e os alimentos de forma correta. "Se for possível, seria ótimo que eles recebessem frutas e legumes para reforçar o complexo vitamínico."

Atualmente, o único canal de comunicação com os trabalhadores é um duto de cerca de 15 centímetros de diâmetro. É nesse espaço que os suprimentos estão sendo enviados.

Na lista de nomes dos mineiros, divulgada à imprensa na terça-feira, o governo relatou que um dos mineiros é diabético e hipertenso. Os médicos endossam a importância de redobrar os cuidados com esse profissional.

“Ele precisará receber medicação e material para fazer o controle da doença. A dieta, pobre em carboidratos, será voltada para os cuidados com o diabético, mas isso é relativamente fácil. Será preciso que enviem frascos preparados exclusivamente para ele.”

Apesar dos esforços do governo chileno em manter as mínimas condições de vida desse grupo, o tempo estimado de resgate em 120 dias faz com que o riscos de morte não sejam descartados.

Caso ocorra uma fatalidade e um dos homens do grupo morra, os médicos alertam que é extremamente necessário enterrar o corpo. “Carne em putrefação está para o ambiente assim como a água contaminada com coliformes fecais. Vírus e bactérias se manifestam rapidamente e elevam as chances de infecções nos demais”, afirma Amaral.

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