Circo de soldados troca conflito por acrobacias na Colômbia

Álex Cubero. Soacha (Colômbia), 3 mar (EFE).- Soldados colombianos, acostumados a lutar no conflito armado interno, trocaram as armas por narizes vermelhos, acrobacias e canções de paz, abandonando o conflito em busca de sorrisos em um circo que percorre regiões muito vulneráveis do país.

EFE |

E não é fácil arrancar os sorrisos dos habitantes de Soacha, ao sul de Bogotá, uma das cidades mais conturbadas pelos chamados "falsos positivos", casos de jovens executados pelo Exército e depois apresentados como guerrilheiros mortos em combate, além de ser uma das áreas que mais refugiados recebeu por causa da guerra interna.

Os jovens e idosos dessa cidade puderam esquecer por um momento suas preocupações com gargalhadas espontâneas ao verem um soldado-palhaço pulando com bruscos movimentos, enquanto se emocionavam ao som das melódicas vozes de um casal de oficiais armados unicamente com microfones e letras que falam sobre respeito.

Trata-se do Circo da Colômbia, formado por soldados e oficiais do Exército, que levam "uma mensagem artística e de paz", mas sobretudo buscam melhorar a imagem das Forças Armadas entre os cidadãos em lugares como Soacha.

Assim o explica à Agência Efe o comandante do Circo da Colômbia, o segundo-sargento Óscar Francisco Yela, pouco antes de carregar sobre seus ombros outro companheiro e se equilibrar sobre uma corda a metros acima do solo.

Acrobatas, malabaristas, equilibristas, cantores e palhaços fazem parte de um circo gratuito que seria igual a qualquer outro se não fosse pelo fato de seus artistas vestirem roupas camufladas, que contrastam com a colorida lona do circo, que cobre cerca de 800 pessoas de todas as idades.

Um espetáculo dirigido a famílias e escolas, mas também repleto de idosos, convidados especiais cujos semblantes refletem a surpresa e a ilusão das crianças que um dia foram.

"É importante ver a alegria das pessoas, a satisfação e os aplausos, ver que uma criança te agradece, te abraça ou te pede um autógrafo, ou ainda ver que a família fica mais unida. Isso é a alegria, a satisfação de fazer esse espetáculo, que o público volte para casa refletindo sobre o trabalho que fazemos aqui", ressalta Yela.

Esse projeto surgiu há 16 anos com o objetivo de recuperar o tecido social nas regiões mais humildes e castigadas pela pobreza e "os valores humanos que foram se perdendo".

O júbilo do público contrasta em algum momento com o silêncio, quando um soldado relata uma fábula cuja moral da história é o perigo das drogas, do álcool e das armas ilegais.

"Não podemos negar que há dificuldades em nosso país, mas penso que o trabalho social vale mais que qualquer outra coisa porque, arrancando sorrisos e alegrias, podemos sentir o calor da comunidade", destaca Yela.

E é ao ver um soldado suspenso no ar, desenhando harmônicos movimentos ao som das notas da canção "Alegria" do Cirque du Soleil, que se percebe uma mudança no estereótipo do soldado violento e rude que os habitantes de Soacha têm do Exército, imerso em uma guerra que afetou muitos deles de forma direta e cruel.

A recompensa a este trabalho social será vista na participação do Circo da Colômbia como convidado especial no Festival Ibero-americano de Teatro, que começa em 19 de março em Bogotá.

Mas a verdadeira honra para estes soldados são os abraços e agradecimentos que recebem ao final do espetáculo, assim como a satisfação de ter ganhado a batalha mais difícil, transformados em heróis sem disparar uma só bala. EFE ac/sa

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