Ignacio Ortega. Moscou, 17 nov (EFE).- Cientistas russos retornaram à Antártida para continuar a busca da água mais pura e antiga do planeta, que se encontra no Lago Vostok sob uma camada de gelo de 3.

748 metros.

"Ainda temos que perfurar 80 metros de gelo para chegar à superfície do lago", explicou um porta-voz do Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica (AARI, em inglês) do Serviço Federal de Hidrometeorologia e Monitoramento Ambiental russo (Roshydromet).

A Expedição Antártica Russa tentará conseguir o que não conseguiu na missão anterior, já que em 2007 os trabalhos de perfuração tiveram que ser suspensos por causa do rompimento de um dos cabos ao se deparar com uma camada de cristal de gelo bastante sólida.

Com cerca de 300 quilômetros de comprimento, 50 de largura e quase mil metros de profundidade em algumas áreas, o Lago Vostok é uma massa de água doce em estado líquido que está no centro da Antártida.

Tem superfície de 15.690 quilômetros quadrados, similar à do Lago Baical, na Sibéria e que é a maior reserva de água doce do mundo.

Descoberto em 1957 por cientistas soviéticos, o Vostok foi incluído na lista das descobertas geográficas mais importantes do século XX.

"O lago tem 450 mil anos. A comunidade científica considera que a descoberta do Vostok é a descoberta geográfica mais extraordinária do século XX", afirma Valeri Lukin, chefe da expedição, citado pela agência oficial "Itar-Tass".

O Vostok é o lago subterrâneo de maior tamanho entre os mais de 100 que estão sob o gelo antártico.

Os russos, que esperam atingir a superfície do lago no início de 2009 e recolher amostras de água, acreditam que o reservatório natural permaneceu selado sob a placa de gelo por um período entre 500 mil e 1 milhão de anos.

"A água do lago está em movimento, por isto contém oxigênio e apresenta outras condições necessárias para a vida", explica o diretor do Instituto de Geografia da Academia Russa de Ciências (Igras, em inglês), Vladimir Kotlyakov.

Os cientistas descobriram em 2005 que o Vostok abriga uma ilha em seu centro, mas ainda se desconhece se acolhe algum tipo de vida vegetal ou animal.

As pesquisas serão conduzidas da Estação Vostok, um dos cinco pontos com os quais a Rússia conta na superfície antártica.

Os primeiros membros da Expedição Antártica Russa já estão na Antártida, aonde chegaram a bordo de um navio que saiu de Punta Arenas, no Chile.

Enquanto isto, o navio Acadêmico Fiodorov iniciou recentemente uma longa travessia com destino ao continente gelado com 230 cientistas e técnicos a bordo.

"A equipe, integrada por 110 pesquisadores permanentes, inclui geólogos, geofísicos, oceanógrafos, meteorologistas e especialistas em geleiras de Moscou e São Petersburgo", disse Lukin.

O Acadêmico Fiodorov também transporta materiais de construção, combustível e comida para as estações, o que inclui equipamentos geodésicos e meteorológicos que enviam as informações à Rússia automaticamente via satélite.

As estações russas geram energia através de baterias de níquel e cádmio que se recarregam com luz solar e funcionam o ano inteiro, inclusive em condições adversas de até 45 graus abaixo de zero.

A falta de dinheiro obrigou a antiga União Soviética e depois a Rússia a fechar definitivamente várias de suas estações, mas nos últimos meses duas delas foram reabertas e está sendo construído um local onde os cientistas poderão viver durante os 12 meses do ano.

Além do óbvio interesse científico, um dos objetivos primordiais da expedição é avaliar as reservas energéticas de sua plataforma continental, estimadas por Lukin em 51 bilhões de toneladas de hidrocarbonetos.

Em 1998 entrou em vigor o Protocolo de Proteção Ambiental para o Tratado da Antártida ou Protocolo de Madri, de 1991 e que estabeleceu que a Antártida é uma região desmilitarizada na qual só podem acontecer pesquisas científicas.

O documento, que ainda não foi ratificado por todos os países, estabelece no artigo 7º um período de 50 anos a todo tipo de exploração dos recursos naturais abaixo dos 60 graus de latitude sul.

Isto não evitou que a maioria de países com bases na Antártida, inclusive a Rússia, desenvolvesse programas de pesquisa geológica que incluem a busca de hidrocarbonetos e recursos minerais no subsolo antártico. EFE io/wr/fal

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