Cientistas descobrem que serotonina leva gafanhotos a formarem nuvens

Uma simples modificação química no cérebro dos inofensivos gafanhotos os transforma em insetos migratórios com necessidade de viver em grupo, formando nuvens devastadoras para as colheitas na África e em outras regiões do mundo, segundo estudo publicado nos Estados Unidos.

AFP |

A descoberta do papel que a serotonina, um neurotransmissor, tem na formação dos enxames destes insetos abre um caminho para desenvolver técnicas eficazes para combater este flagelo, que afeta a subsistência de um em cada 10 habitantes do planeta.

Bastam 500 gafanhotos-do-deserto (Schistocerca gregaria) adultos para que se forme uma nuvem. Para o gafanhoto-migrador (Locusta migratoria), são necessários 2.000 insetos por hectare para que o fenômeno aconteça, segundo especialistas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês).

Esses dois insetos mudam radicalmente quando se agrupam: sua cor, morfologia, fisiologia e seu comportamento sofrem uma metamorfose completa.

Os pesquisadores descobriram que os gafanhotos em nuvem apresentam níveis de serotonina três vezes maiores do que quando vivem sozinhos.

Em sua fase gregária, o gafanhoto verde se torna amarelo, desenvolve grandes músculos, que permitem o vôo por horas a fio, e procuram incessantemente a companhia de outros gafanhotos. Assim, podem se formar enxames com bilhões de insetos, que avançam a 96 km/h de cinco a oito horas em busca de comida.

"A fase gregária é uma estratégia nascida do desespero e conduzida pela fome, e a formação de uma nuvem é uma resposta para encontrar novas fontes de comida", explica Steve Roger, da Universidade de Cambridge, um dos principais autores do estudo, que sairá publicado na revista americana Science do dia 30 de janeiro.

Os pesquisadores descobriram que o aumento da serotonina no sistema nervoso causa mudanças profundas no comportamento desses insetos, o que os leva a formar enxames.

No laboratório, os gafanhotos solitários podem ser transformados em gregários em apenas duas horas: tudo o que os cientistas precisam fazer é coçar um pouco suas patas traseiras, simulando os esbarrões que os insetos dão uns nos outros quando vivem em grupo. Esta estimulação, descobriram, aumenta a concentração da serotonina.

Para provar a responsabilidade do neurotransmissor na mudança de comportamento dos gafanhotos, os cientistas injetaram em alguns insetos uma substância que bloqueia a ação da serotonina. Ao estimulá-los, eles não se agruparam.

Até hoje, "ninguém tinha conseguido identificar as mudanças no sistema nervoso central que transforma gafanhotos antisociais em enxames monstruosos", disse Michael Anstey, da Universidade de Oxford, co-autor do estudo.

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