Cientista iraniano supostamente sequestrado acusa Estados Unidos

Shahram Amiri desembarcou nesta quinta-feira em Teerã e disse não trabalhar para o setor nuclear iraniano

iG São Paulo |

O cientista iraniano Shahram Amiri, que acusou os Estados Unidos de terem o mantido sequestrado durante mais de um ano, afirmou nesta quinta-feira, ao retornar ao Irã, que os norte-americanos ameaçaram o entregar a Israel caso não colaborasse.

O físico, que, segundo Teerã, foi sequestrado há 14 meses pelos serviços secretos americanos, afirmou, pouco depois de chegar à capital iraniana nesta quinta-feira, que não trabalha para o setor nuclear de seu país.

"Não tenho nada a ver com Natanz e Fordo (duas instalações de enriquecimento de urânio). Foi uma manobra do governo americano para fazer pressão sobre o Irã", declarou Amiri no aeroporto de Teerã, onde foi recebido pela esposa e o vice-ministro das Relações Exteriores, Hassan Qashqavi. "Não fiz nenhuma pesquisa no campo nuclear. Sou um simples pesquisador que trabalha numa universidade aberta a todos e onde não há nenhum segredo", afirmou.

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Shahram Amiri foi recebido por familiares e autoridades nesta quinta-feira no aeroporto de Teerã, capital do Irã

Amiri, que desapareceu há 14 meses na Arábia Saudita onde tinha ido fazer uma peregrinação, retornou nesta manhã a Teerã e acusou aos serviços secretos sauditas e norte-americanos de terem o sequestrado em frente ao seu hotel em Medina e de ter levado aos EUA contra sua vontade.

"Os agentes de serviços secretos dos EUA e da Arábia Saudita me sequestraram junto a meu hotel em Medina (Arábia), e depois me levaram a um paradeiro desconhecido e doparam para que desmaiasse antes de ser levado aos EUA em um avião militar", disse.

Amiri também acusou as autoridades norte-americanas de tentar obrigá-lo, mediante tortura, a fazer confissões falsas sobre o programa nuclear iraniano. "Me pediram para que eu dissesse publicamente que queria solicitar asilo político nos EUA e que tinha um computador portátil com informações classificadas sobre o programa nuclear iraniano com fins militares", disse Amiri em declarações citadas por "Fars".

Desaparecimento em 2009

Shahram Amiri desapareceu em junho de 2009 na Arábia Saudita, para onde havia viajado para uma peregrinação muçulmana. Teerã afirma que ele foi sequestrado pelos Estados Unidos com a ajuda dos serviços de inteligência sauditas. Os Estados Unidos sempre desmentiram ter sequestrado o físico e até então se negavam a esclarecer se ele se encontrava ou não em seu território.

Na última terça-feira, Amiri se refugiou no escritório de interesses de seu país na embaixada do Paquistão , e disse ao canal de televisão iraniano Press TV que, durante os últimos 14 meses, foi "submetido a uma pressão psicológica grande e vigiado por homens armados".

Ao ser informado de que o Amiri havia se refugiado na representação iraniana, o departamento de Estado americano declarou que o cientista iraniano se encontrava nos Estados Unidos por vontade própria e era livre para partir quando quiser.

"Estou realmente surpreso com as declarações da secretária de Estado americana (Hillary Clinton), que afirmou que eu estava livre e que fui livremente para lá. Não estava livre. Estava custodiado por homens armados dos serviços secretos", insistiu. "Nos dois primeiros meses, fui submetido às piores torturas mentais. Também ameaçaram minha família", disse.

O cientista, no entanto, não indicou o lugar de sua detenção nem como conseguiu chegar à embaixada do Paquistão, que abriga a seção de interesses iranianos desde a ruptura das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a República Islâmica há 30 anos.

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Imagem exibida por TV iraniana mostra homem que diz ser o cientista Shahram Amiri em dois vídeos divulgados no YouTube
No final de março, o canal americano ABC afirmou que Amiri, apresentado como um físico nuclear, havia desertado e estava colaborando com a CIA. Segundo a imprensa iraniana, Amiri é um "pesquisador de radioisótopos médicos da Universidade Malek Ashtar", subordinada à Guarda da Revolução, o exército ideológico do regime islâmico.

Em 7 de junho, a televisão estatal iraniana difundiu um vídeo no qual um homem que diz se chamar Amiri afirmava ter sido sequestrado pelos serviços secretos americanos e estar detido perto de Tucson (Arizona, sudoeste dos Estados Unidos). Depois o Irã solicitou, por vias legais, informações sobre ele.

No final de junho, outro vídeo divulgado pelos meios de comunicação iranianos mostrava o mesmo homem que dizia ter fugido e que se encontrava em Virgínia, no leste dos EUA.

O Irã convocou em 7 de julho o adido de negócios da embaixada suíça, que representa os interesses americanos em Teerã, para protestar contra o sequestro de Amiri pela CIA. A chancelaria iraniana afirma ter entregado à embaixada suíça as provas do sequestro de Amiri pela CIA.

Irã nega troca de presos

O vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Hassan Qashqavi, presente no aeroporto, declarou, por sua parte, que a libertação de Shahram Amiri não estava vinculada a qualquer troca com os três americanos detidos no Irã há mais de um ano .

O vice-ministro afirmou que as acusações são infundadas e propagandísticas, segundo a agência semioficial "Fars". "A libertação de Amiri não tem nada a ver com os cidadãos norte-americanos detidos no Irã. Isto não é verdade", disse Qashqavi durante o recebimento a Amiri no aeroporto de Teerã.

O oficial iraniano se referia aos americanos Shane Bauer, Josh Fattal e Sarah Shourd que permanecem presos no Irã desde a detenção, há quase um ano, junto da fronteira com o Iraque sob a acusação de espionagem e entrada ilegal no país.

* Com EFE e AFP

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