Cidades inundadas enfrentam aumento de doenças

Nas visitas diárias que fazem aos 54 abrigos destinados às vítimas das enchentes em Bacabal, no Maranhão, os agentes de saúde do município já percebem um aumento nos casos de algumas doenças.

BBC Brasil |

Segundo a coordenadora do serviço de assistência de enfermagem aos abrigos, Joanna Dark, apesar de ainda não haver surto de nenhuma enfermidade, há um aumento nos casos de diarreia, verminose e infecção respiratória aguda.

O contato com a água contaminada pela enchente e a aglomeração nos abrigos, onde estão 4,7 mil pessoas, algumas há mais de um mês e em precárias condições sanitárias, são apontados como as principais causas desse aumento.

"Falta de higiene, mãos sujas, contato com fezes, alimentos mal lavados, tudo isso pode causar diarreia e verminoses", diz a enfermeira.

No caso das doenças respiratórias, a propagação é facilitada pelo fato de várias famílias às vezes terem de dividir um pequeno cômodo, sem ventilação adequada.

Bacabal é uma das cidades mais atingidas pelas enchentes no Maranhão. Os primeiros desabrigados tiveram de deixar suas casas ainda em março, quando o rio Mearim começou a subir e invadir os imóveis.

Mais de um mês depois, a chuva não para, e o rio ainda está cerca de 5 metros acima de seu nível normal. O temor dos médicos é que, quando a chuva parar e as águas baixarem, a cidade venha a enfrentar epidemias.

"Como a água está alta e com correnteza forte, os mosquitos não colocam os ovos", diz o major Carlo Endrigo Bueno Nunes, coordenador da equipe médica do Exército que está em Bacabal para auxiliar a população atingida pelas cheias.


Crianças em Santa Rosa são atendidas pelo major Endrigo / Foto: Alessandra Corrêa

Quando as águas baixarem, segundo o major, há o risco de doenças como dengue, malária (que é endêmica na região), leishmaniose e esquistossomose.

Agentes de saúde

Desde o fim-de-semana, uma equipe de dois médicos e dois enfermeiros do Exército está percorrendo a cidade e as comunidades ribeirinhas para identificar as principais áreas de risco de doenças e distribuir remédios.

Segundo o major Endrigo, o maior risco está na zona rural, onde mais de 5 mil pessoas estão isoladas, sem qualquer contato com agentes de saúde.

Na manhã de quarta-feira, uma equipe do Exército, da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros de São Paulo, que também estão trabalhando no auxílio às vítimas das enchentes em Bacabal, percorreu um trecho do rio Mearim para distribuir medicamentos e cestas básicas às famílias isoladas.

Em localidades como Santa Rosa, em que vivem cinco famílias, os médicos verificaram doenças respiratórias e verminose em algumas das crianças.

Isoladas pelo rio, comunidades como essa vivem sem energia elétrica e sem condições adequadas de higiene. Entre as crianças, as mais novas não tinham sequer registro ou nome.

Fila na torneira

Nos abrigos, a situação não é melhor. Em Bacabal, a maioria das pessoas obrigadas a deixar suas casas por causa da enchente foi para locais públicos por conta própria, sem qualquer infraestrutura.

No Hospital Santa Teresinha, que estava abandonado, dezenas de famílias dividem salas e corredores em que a água da chuva se mistura aos dejetos.

Perto dali, mais de mil pessoas estão abrigadas no Parque de Exposições do município, ocupando o espaço antes destinado a cavalos e vacas.

Na noite de terça-feira, a dona de casa Ana Lúcia Ferreira da Silva, de 24 anos, cuidava da filha Edite, de um ano, que após passar sete dias no hospital, voltou para o abrigo e continuava a apresentar febre.


Ana Lúcia e a família / Foto: Alessandra Corrêa

"Disseram que é uma infecção", diz Ana Lúcia, que vive no parque há mais de um mês, ao lado do marido e de outros dois filhos, de três e sete anos.

A dona de casa reconhece que a falta de higiene no abrigo pode ser um dos motivos da doença da filha. "Desde que cheguei do hospital estou com uma bacia de roupa suja para lavar, mas sempre tem fila na torneira."

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