À medida que o barco em que estávamos se aproximava da pequena cidade de Trizidela do Vale, no Maranhão, ficava mais claro que as notícias de que 90% do local estava submerso não eram exageradas. Em alguns lugares, a única indicação de que este era o lar de uma comunidade pobre, mas vibrante, eram as telhas vermelhas dos tetos das casas, um pouco acima da linha de água, além de ocasionais antenas parabólicas.

Embora existam temores de que as águas estejam contaminadas com esgoto, animais mortos e até mesmo corpos levados de um cemitério próximo, as pessoas continuam nadando nelas, no clima quente e úmido da região.

Uma esquina se transformou em um porto improvisado, com barcos indo e voltando a todo momento. Um deles levava uma mulher que acabara de ter um bebê. Ela parecia bastante calma, apesar das circunstâncias.

Nós viajamos a Trizidela do Vale junto com policiais e soldados que levavam cestas básicas para os habitantes da cidade.

Os problemas trazidos pelas inundações na cidade são enormes. De uma população de 18 mil habitantes, cerca de 15 mil foram obrigados a deixar suas casas.

Alguns daqueles que ficaram até o último momento, esperando que as águas baixassem, também perderam suas propriedades.

Acima de um morro, na igreja de Santo Antonio de Pádua, o padre local, Ribamar Cardoso, conta que a comunidade está passando por um momento difícil.

Segundo ele, as 500 cestas básicas que foram enviadas na última quarta-feira não eram suficientes para alimentar os desabrigados.

"Temos que alimentar cerca de 4 mil famílias. Teremos que escolher as famílias mais necessitadas para entregar as 500 cestas que recebemos hoje (quarta-feira). Escolheremos as famílias maiores", diz.

"Porque a última vez que recebemos cestas foi no dia 5 de maio, e hoje é dia 13, e há famílias com nove ou dez pessoas".

Isolados
Ainda junto com os soldados que levavam cestas básicas, viajamos 2,5 km no rio Mearim, até uma pequena comunidade onde 62 famílias estão completamente isoladas pelas inundações.

Assim que nosso barco chegou, as pessoas começaram a fazer uma fila em uma rua alagada segurando as senhas que dão direito às cestas básicas.

A moradora Francilene Pereira afirmou que o mês passado foi muito difícil para todos.

"Nossa situação é muito precária, a água está levando tudo", contou.

"Nós vivemos de fazer carvão (vegetal) e de pegar cocos. Como você pode ver, não há maneira de continuarmos fazendo isso porque está tudo alagado, todos os cocos estão debaixo da água".

Enquanto tomávamos o caminho de volta, as nuvens começaram a se juntar de forma preocupante e a chuva começou a cair novamente, um sinal para a comunidade de que o pior ainda não havia passado.

Abrigos

Na cidade de Bacabal, nas proximidades, muitos moradores também tiveram que lidar com as perdas de suas casas e de seus bens.

Maria Bezerra e sua família estão acomodadas em um abrigo temporário. As condições estão longe das ideais, com pouco acesso a instalações sanitárias e com as áreas para cada família divididas por plásticos.

Há nove pessoas dividindo o mesmo espaço com Maria, incluindo uma mulher que amamenta uma criança nascida há pouco menos de uma semana.

"Para mim, não está bom, porque eu perdi tudo e estou fraca e doente", diz.

"Perdi meu fogão, meu colchão, a cama. Tudo está lá boiando dentro da minha casa".

Outra desabrigada, Bernarda Silva, conta que ela tentou ficar esperando em sua casa, mas o rio continuou subindo.

"Quando a água chegou à porta, começou a entrar dentro de casa. A única opção que tínhamos era sair, e não tínhamos tempo para pegar as coisas. Então, uma das paredes desabou e, como se não fosse suficiente, a casa toda desabou", conta Bernarda.

Aquecimento global

As inundações no Nordeste do país - região normalmente árida - e a seca no Sul levantaram discussões sobre os possíveis impactos do aquecimento global no Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou esta como a possível causa das atuais condições climáticas.

O pesquisador Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é da mesma opinião.

"Já havia secas e inundações antes das mudanças climáticas, mas estes fenômenos extremos estão se tornando mais frequentes", afirmou Nobre à BBC News.

"Provavelmente, este tipo de fenômeno ocorreria a cada 50 anos, mas agora está acontecendo de maneira mais frequente".

"Podemos comparar, por exemplo, com as recentes cheias no rio Amazonas. A última havia acontecido há 107 anos. Mas, no ano passado, a cheia foi além da média e, este ano, atingiu níveis recordes", diz Nobre.

Ricos e pobres

As recentes inundações no Nordeste também levantaram outra discussão entre alguns brasileiros.Quando, no ano passado, o próspero Estado de Santa Catarina foi atingido por enchentes, pareceu que o país inteiro se mobilizou para ajudar.

Agora que alguns dos Estados mais pobres do país são vítimas das inundações, alguns afirmam que parece que há menos mobilização, embora o governo esteja prometendo uma significativa injeção de recursos para reconstruir as casas danificadas.

Enquanto isso, para grande parte das vítimas, a esperança é de que a água comece a recuar para que eles possam reconstruir suas vidas e tentar restaurar algum tipo de normalidade.


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