Cidade de Gori tenta se curar das feridas do conflito na Geórgia

Misha Vignanski. Gori (Geórgia), 30 ago (EFE).- Enquanto a Geórgia rompe as relações diplomáticas com a Rússia, a população de Gori, cidade estratégica localizada a 70 quilômetros ao noroeste de Tbilisi e região mais afetada pelos bombardeios russos, devido à proximidade geográfica com Tskhinvali, tenta se curar das feridas do conflito.

EFE |

A localidade de origem do ditador soviético Yosif Stalin fica a 26 quilômetros de Tskhinvali, capital da região separatista georgiana da Ossétia do Sul.

Stalin, que construiu um grande império, dificilmente poderia imaginar que 55 anos após sua morte aviões russos bombardeariam a cidade que o viu nascer, em 1879.

No edifício onde fica o Museu Estatal de Stalin, na avenida que leva seu nome, as janelas continuam quebradas após os bombardeios.

O museu permanecerá fechado até 8 de setembro, enquanto segue na Geórgia o estado de guerra.

Os objetos pessoais do líder soviético - cachimbo, capa, barbeador, botas e outros pertences - foram transferidos para Tbilisi por motivos de segurança.

"Stalin também está em estado de guerra", diz à Agência Efe um guarda do museu.

A alguns metros do museu, a rua que leva o nome do lendário dançarino georgiano Iliko Sujishvili ficou destruída pelos bombardeios, e vários edifícios pegaram fogo. Sob os escombros, ainda permanecem corpos e ninguém sabe dizer com exatidão qual é o número de vítimas fatais.

"Só na minha porta, morreram três pessoas, duas mulheres e um homem. Quando começaram a cair bombas, carreguei nos braços meu filho Sabu, de um ano, e comecei a correr. Nós tivemos mais sorte", diz Zviad Shiukashvili, de 40 anos.

Os moradores desses edifícios passam a maior parte do tempo na casa de parentes, tentando tirar de casa tudo o que ainda puder ser resgatado, enquanto as autoridades de Gori prometem reconstruir suas casas.

"Não acredito nas autoridades. Não nos chegou nada da ajuda humanitária enviada do Ocidente. Nosso apartamento pegou fogo. Somos cinco e temos de dormir na garagem. Nem sequer nos dão comida infantil", lamenta Gulnara Mamistvalova, de 50 anos.

Vazha Abjasashvili, de 51 anos, diz que não quer mais ficar em Gori, onde morou toda a vida.

"Sempre tenho medo de que os bombardeios se repitam. Os russos estão perto e acho que nos perseguem", afirma.

Os russos realmente estão perto. A apenas 8 quilômetros da cidade, no povoado de Karaleti, a caminho de Tskhinvali, se encontra o primeiro posto de controle russo.

A atividade não pára. São abertas trincheiras e colocados arames farpados, e também é possível ver um carro blindado com bandeira russa.

O vice-ministro da Defesa georgiano, Batu Kutelia, disse que a "Rússia ocupou a Geórgia. Os soldados russos são agressores e invasores e devem ir embora".

A Geórgia espera "uma rápida entrada na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)", afirma, e acrescenta que "a União Européia (UE) conta com informação detalhada da agressão russa contra a Geórgia, por isso Tbilisi espera da UE uma resposta adequada".

"Meu marido Lavrenti é osseta, e eu, georgiana. Quando a Rússia bombardeou nossa cidade, ele ficou ferido e está no hospital.

Existem muitos casais mistos como o nosso. É a Rússia que coloca em confronto georgianos e ossetas. Nós sempre vivemos em paz", afirma Medea Mazmishvili, de 65 anos.

Isolda Kajniashvili, de 70 anos, explica entre soluços que há 17 anos fugiu de Tjinvali por causa da guerra.

"Vivi em Gori, e agora, pela segunda vez, volto a ser uma refugiada. Meu marido Victor morreu agora nos bombardeios. É o destino, a guerra nos persegue. E agora, para onde vou?", lamenta.

Um jovem de 15 anos, sentado em um degrau, leva as mãos à cabeça e não quer lembrar dos bombardeios. Veste uma camiseta com a legenda "Rússia", algo bastante inesperado nos tempos atuais.

Perguntado sobre se não é perigoso usar uma camisa como esta agora, explica que foi a única roupa que se salvou das chamas.

O Governo da Geórgia declarou o dia 1º de setembro, data em que a UE realiza uma sessão extraordinária para debater a crise russo-georgiana, dia de jornada reduzida, no qual só se trabalhará até às 14h.

A partir das 15h, os georgianos sairão às ruas para formar uma corrente humana contra a "ocupação russa", cuja última expressão foi o reconhecimento por parte de Moscou da independência das regiões separatistas georgianas da Abkházia e da Ossétia do Sul. EFE egw/fh/an

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