Cidade austríaca não entende como ninguém percebeu abusos

Por Sylvia Westall AMSTETTEN, Áustria - Quando, de sua loja, olha na direção da casa do outro lado da rua que chamou a atenção do mundo todo para a pequena cidade de Amstetten, na Áustria, Guenter Haller sente um arrepio.

Reuters |

'Esta é a cidade mais tranquila em que já vivi. Fiquei completamente chocado ao saber que um homem desse tipo morava do outro lado da rua e que fez essas coisas horríveis com a filha dele', afirmou o vendedor, 42, na segunda-feira.

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Josef F. admite ter prendido filha por 24 anos
'Não sei como os outros inquilinos não perceberam isso.'

Debaixo do conjunto de casas cinzas para o qual Haller olha fica o porão onde um homem de 73 anos de idade manteve, durante 24 anos, sua filha presa junto com alguns dos filhos que teve com ela.

Esse cenário de horror veio à tona apenas quando um dos três filhos mantidos em cativeiro, uma jovem de 19 anos, ficou gravemente doente e precisou ser levada a um hospital.

A próspera e agitada cidade de Amstetten, localizada em uma região de montanhas distante 130 quilômetros de Viena, está em choque.

Josef Fritzl confessou ter, em 1984, atraído sua filha Elisabeth, 42, para o porão do bloco de casas onde a drogou, algemou e aprisionou.

A construção fica em uma das ruas mais movimentadas da cidade, na qual encontram-se cafés, uma floricultura e lojas de decoração.

A entrada do porão sem janelas, dentro do qual, segundo a polícia, há também uma sala com paredes acolchoadas, ficava na parte traseira do conjunto, em uma rua com várias casas pequenas.
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Na foto, banheiro onde filha era mantida


'Olhe esta região. Esta é uma área residencial', afirmou Sabine Ilk, 32, apontando para a fileira de casas brancas e beges com jardinzinhos bem cuidados na parte dianteira.

'Eu cresci em Amstetten. Esta aqui é uma comunidade unida e é inacreditável que ninguém nunca tenha notado o que esteve acontecendo durante tanto tempo.'

Peritos usando uniformes e luvas brancas carregavam caixas com provas para fora da casa enquanto os investigadores vasculhavam os cômodos do porão, cuja entrada Fritzl escondeu atrás de prateleiras.

Três dos filhos de Elisabeth e seu pai, com idades de 5, 18 e 19 anos, ficaram desde o nascimento trancados dentro do emaranhado de quartos com uma altura, em alguns pontos, de apenas 1,70 metro. Aparentemente, os três nunca viram a luz do Sol e nem receberam qualquer tipo de educação.

Uma outra criança morreu pouco depois de ter nascido e Fritzl queimou o corpo dela em uma caldeira do sistema de aquecimento da casa. O engenheiro elétrico e sua mulher, Rosemarie, criaram os outros três filhos da relação incestuosa, duas meninas e um menino.

Um jornal austríaco criticou todos os cerca de 22 mil moradores de Amstetten.

'A comunidade de Amstetten deveria afogar-se em vergonha.

Os vizinhos faziam-se de cegos', afirmou o diário Oesterreich em um editorial.

Em um caso semelhante, ocorrido também na Áustria, Natascha Kampusch foi mantida oito anos trancada em uma cela sem janelas por um homem que a sequestrou. Kampusch conseguiu escapar em 2006 -- e alguns austríacos preocupam-se com o que o mundo pensará do país após esses dois episódios.

'O país todo precisa perguntar-se sobre o que está real e fundamentalmente acontecendo de errado', escreveu o jornal Der Standard.

'Claramente, este caso é igual ao de Kampusch, mas ao mesmo tempo muito pior', afirmou o aposentado Joachim Wasser, 75, morador de Amstetten.

'Isso não significa que haja algo de errado com a Áustria.

Esse tipo de coisa poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Mas não pode repetir-se nunca mais.'

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