Ciclone deixou 22.000 mortos e 41.000 desaparecidos em Mianmar

Mais de 22.000 mortos e 41.000 desaparecidos: este é o novo balanço oficial, anunciado pela televisão estatal, da passagem do ciclone Nargis por Mianmar no fim de semana passado, enquanto aumentam as críticas em todo o mundo pela falta de previsão da junta militar que governa o país.

AFP |

"Segundo informações obtidas até o meio-dia morreram 21.793 pessoas e 40.695 são consideradas desaparecidas na região de Irrawaddy, enquanto 671 morreram, 670 ficaram feridas e 359 estão desaparecidas na região de Yangun", afirmou a televisão estatal.

Este anúncio representa um aumento considerável em relação ao balanço anterior de 15.000 mortos, sendo 10.000 somente na cidade de Bogalay (sudoeste).

A agência da ONU para a prevenção de catástrofes criticou nesta terça-feira a falta de um alerta antecipado, que teria evitado milhares de mortes.

"Dado o número de mortos, pensamos que não se colocou em prática um sistema de alerta precoce", afirmou Brigitte Leoni, porta-voz da Estratégia Internacional para a Prevenção de Catástrofes (SIPC), organismo da ONU.

"Claramente muitas pessoas não tiveram tempo de ser evacuadas e se refugiar em locais seguros. Os sistemas de alerta precoce são muito importantes e podem salvar muitas vidas", acrescentou.

Porém, o serviço de meteorologia da Índia informou que preveniu a vizinha Mianmar 48 horas antes da chegada do ciclone.

"Quarenta e oito horas antes do Nargis atingir (Mianmar), fornecemos às agências birmanesas o ponto de impacto (do ciclone), sua gravidade e todos os assuntos vinculados", declarou à AFP o porta-voz do departamento indiano de meteorologia, B. P. Yadav, um organismo público vinculado à Organização Meterológica Mundial (OMM).

O presidente George W. Bush exigiu que a junta militar de Mianmar permita que os Estados Unidos enviem ajuda e aprovou a maior condecoração do Congresso dos Estados Unidos à líder opositora birmanesa Aung San Suu Kyi.

"Queremos fazer muito mais", disse Bush na Casa Branca em uma entrevista coletiva.

O presidente americano anunciou ainda que Suu Kyi receberá a Medalha de Ouro do Congresso.

A primeira-dama dos Estados Unidos, Laura Bush, também criticou o regime birmanês por não ter alertado a população e prometeu uma ajuda de Washington, além dos 250.000 dólares já enviados.

A comunidade internacional se mobiliza para enviar ajuda às vítimas, mas as autoridades de Mianmar impõem condições para a entrada das equipes humanitários.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, afirmou que a ONU fará todo o necessário para levar ajuda emergencial a Mianmar, um dos países mais pobres da Ásia.

"As equipes de especialistas estrangeiros que vierem terão que negociar com o Ministério das Relações Exteriores e com as principais instâncias para ter o acesso permitido", declarou Maung Maung Swe, ministro da Previdência Social.

Porém, quatro dias depois da passagem do ciclone que devastou o país, as equipes das organizações de ajuda humanitária da ONU continuam esperando vistos para poder entrar em Mianmar.

"Esperamos que nos entreguem os vistos", disse Veronique Taveau, porta-voz do Unicef em Genebra.

Além dos Estados Unidos, China, Noruega, Canadá, Holanda, Suécia, Alemanha, França, República Tcheca, Grã-Bretanha e a Comissão Européia também anunciaram o envio de milhões de dólares de ajuda. Outras nações, como Tailândia e Índia, mobilizarão seus Exércitos para enviar medicamentos e alimentos.

A Nova Zelândia se ofereceu para auxiliar Mianmar, mas com a condição de que a ajuda não passe pelas mãos do regime.

O Papa Bento XVI afirmou estar profundamente triste com as trágicas conseqüências do ciclone que devastou Mianmar e pediu que a comunidade internacional ofereça uma ajuda "generosa" aos afetados, informou nesta terça-feira o Vaticano.

A junta militar que governa Mianmar anunciou que o referendo constitucional será realizado sábado na maior parte do país como previsto, mas será adiado em 47 cidades afetadas pelo ciclone.

"O referendo foi adiado em 47 cidades, mas as outras zonas de desastre voltaram à normalidade", informou a televisão estatal birmanesa, captada em Bangcoc.

O referendo de 10 de maio, sobre um novo projeto de Constituição, será a primeira oportunidade de voto dos birmaneses desde as eleições legislativas de 1990.

O referendo acontecerá em 24 de maio em sete cidades de Irrawaddy e em 40 da região de Yangun.

A junta birmanesa afirma que o processo, que começa com o referendo de sábado, resultará em eleições democráticas em 2010, mas os opositores afirmam que servirá apenas para reforçar o poder dos generais.

O partido da opositora birmanesa Aung San Suu Kyi considerou imediatamente que é "totalmente inaceitável" a manutenção da data do referendo.

Para a Liga Nacional para a Democracia (LND), o regime militar deve antes de mais nada ajudar os milhares de afetados.

"Não vimos ajuda eficaz para as vítimas do ciclone, apesar de as autoridades terem declarado as regiões afetadas em estado de catástrofe natural", declarou o partido de Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz e que permanece em prisão domiciliar.

"É totalmente inaceitável que dêem prioridade ao processo constitucional, sem levar em consideração as dificuldades enfrentadas pelo povo durante o desastre", acrescenta.

"A NLD pede de maneira muito especial, em nome do povo, ajuda internacional o quanto antes, incluindo por parte das Nações Unidas, para reconstruir as infra-estruturas rapidamente e aliviar os sofrimentos do povo", afirma um comunicado.

"A NLD ajudará e cooperará para o envio de ajuda internacional às vítimas do ciclone rapida e adequadamente", conclui a nota.

Talvez como forma de pressão, o presidente americano anunciou nesta terça-feira que Suu Kyi receberá a Medalha de Ouro do Congresso.

"É um tributo adequado a uma mulher corajosa, que levanta a voz pela liberdade de todo o povo de Mianmar. É uma voz poderosa voz em contraste à junta militar no poder em Yangun", disse.

hla/fp

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