Ciclone deixa 138 mil mortos e coloca Junta Militar em xeque em Mianmar

Juan Campos. Yangun, 20 dez (EFE).- Quando o ciclone Nargis passou no início de maio pela carente região sul de Mianmar (antiga Birmânia), nem os búfalos dágua - animais que passam muito tempo em lagoas e pântanos - encontraram um local para se proteger do furioso fenômeno climático, que deixou mais de 138 mil pessoas mortas.

EFE |

O ciclone arrasou áreas pertencentes ao delta do rio Irrawaddy, que fornece grandes quantidades de arroz ao país e que demorará anos para se recuperar da catástrofe, segundo especialistas.

Árvores arrancadas pela raiz, arrozais inundados e famílias inteiras vivendo sob precárias edificações de madeira cobertas com lonas de plástico formavam parte do cenário no sul de Mianmar.

Pela única estrada transitável que leva à região mais fértil do país, cruzada por dezenas de riachos que abastecem os cultivos, vagavam milhares de sobreviventes da tragédia em busca de pais, filhos ou amigos, pessoas a quem evitavam reconhecer como mortos.

A Junta Militar que controla o poder em Mianmar desde 1962 foi, pouco a pouco, elevando o número de vítimas, enquanto mantinha rejeição à ajuda humanitária oferecida pela comunidade internacional.

Quando os generais birmaneses perceberam que a magnitude da tragédia era muito maior que a prevista, cederam um pouco e permitiram a entrada de alimentos e remédios, embora tenham insistido em responsabilizar-se pela distribuição dos produtos entregues e negado vistos a quase todos os voluntários estrangeiros.

O delta do Irrawaddy já havia se tornado um lodaçal com muitos corpos inchados pela água, reduto de doenças e de casas destruídas.

Os preços de artigos básicos disparavam pelo aumento da demanda e da escassez em uma das nações mais pobres do planeta.

Ao mesmo tempo, milícias ligadas ao Governo confiscavam sacos de arroz doados por órgãos humanitários internacionais, com o objetivo de revender o produto nos mercados de Yangun, maior cidade de Mianmar.

No delta do Irrawaddy, as forças de segurança, em vez de trabalharem na reconstrução de infra-estruturas danificadas, concentraram seus poderosos serviços de inteligência para intimidar e impedir birmaneses de fazerem doações sem permissão. Da mesma forma, passaram a vigiar a presença de qualquer forasteiro.

A partir de uma fortaleza construída em Nay Pyi Taw, nova capital levantada pelos militares no meio da selva, o chefe da Junta Militar, general Than Shwe, se mostrou alheio ao sofrimento do povo e decidiu seguir adiante com a idéia de convocação de um plebiscito constitucional, primeiro nas regiões não atingidas pelo ciclone e depois no resto do país.

A consulta contou com um apoio arrasador por parte da população, aterrorizada pela repressão de um regime que se orgulha de permanecer isolado do exterior e que não se intimidou diante de graves acusações de fraude nas urnas.

Pressionado, Than Shwe acabou por autorizar a realização em Yangun de uma conferência internacional de doadores, entre eles o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

Durante toda a crise, o papel da ONU ficou em segundo plano. O protagonismo coube à Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco que se autoproclamou mediador mas que fracassou em sua iniciativa e obteve poucas concessões da Junta Militar, protegida pela China, seu aliado mais ferrenho.

O próprio dirigente da ONU, após intensas negociações, conseguiu fazer com que o chefe da Junta Militar abrisse as portas do país a voluntários estrangeiros, mas as autoridades birmanesas fizeram o possível para colocar impedimentos aos trabalhos humanitários.

Os mais prejudicados por essa queda-de-braço foram, como costuma ocorrer sempre em situações do tipo, as vítimas do ciclone, a maioria camponeses que antes da passagem do fenômeno climático viviam abaixo da linha da pobreza e sem acesso a serviços básicos de educação ou saúde, e que agora sofrem com crise provocada pela fome.

Passados sete meses do impacto inicial do "Nargis", ainda é cedo para analisar os efeitos que a catástrofe terá nas gerações futuras dos mais de um milhão de deslocados e dos cerca de dois milhões e meio de desabrigados.

Em todo caso, parece que será necessário esperar iniciativas de reforma do movimento democrático de oposição ao regime birmanês.

Será fundamental reunir o maior número de forças possíveis no processo de recuperação do país do maior desastre natural de sua história recente. EFE csm/fr

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