China não salvará crise, mas vai sofrer menos, dizem analistas

Especialistas entrevistados pela BBC Brasil acreditam que a China não tem capacidade de impulsionar sozinha a economia mundial a ponto de solucionar a crise, mas apontam que o país sofrerá menos que o Ocidente apesar de já dar sinais de desaceleração. A China não é a salvadora da crise mundial, afirma Dong Tao, economista-chefe para Ásia do banco Credit Suisse Boston First.

BBC Brasil |

Apesar de ser financiadora de boa parte da dívida americana (possuindo mais de US$518 bilhões em títulos do governo dos EUA) a China ainda não tem uma economia completa e complexa o suficiente para estimular todo o organismo global, acreditam economistas.

Os cidadãos chineses ainda consomem muito pouco e não poderiam absorver aquilo que deixará de ser comprado pelos americanos, porém ações intervencionistas e desenvolvimentistas de Pequim garantirão um ritmo de crescimento entre 8% e 9% em 2009.

Essa é uma queda considerável se comparada com os mais de 12% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) obtidos em 2007, mas ainda muito superior à recessão estimada para o Ocidente.

A desaceleração no crescimento das exportações nos últimos doze meses e o esfriamento do mercado imobiliário são alguns indícios que apontam para um ritmo mais lento de expansão do PIB chinês.

Crise
Para acalmar a crise, Pequim anunciou de imediato o corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros, que agora estão na casa dos 6,9%.

Além disso, o banco central possui controle acionário dos grandes bancos do país e tem comprado ainda mais ações dessas instituições para garantir que elas estejam capitalizadas para operar.

Já em médio e longo prazo, a liderança comunista quer reverter a dependência da economia chinesa das exportações e aumentar o consumo interno com uma série de reformas.

"Também é a falta de consumo a razão pela qual a China não consegue, ao contrário dos Estados Unidos pré-crise, segurar a economia de todo o mundo", afirma Dong.

De acordo com Belle Chan, diretora-executiva para Metais da companhia BOC International, em Hong Kong, a China não conseguirá aumentar seu comsumo a ponto de dar conta do mercado global.

Ela concorda com Tao e avalia que o crescimento da China não está completamente ameaçado, mas certamente será desacelerado.

Consumo
O problema é que o consumidor chinês é muito cauteloso, pois o governo não garante serviços de segurança social como aposentadoria e saúde gratuita.

Com medo das incertezas futuras, os cidadãos chineses preferem não gastar para não ter que se endividar.

Ao todo, as dívidas dos consumidores chineses correspondem a 13% do PIB, enquanto que nos Estados Unidos essa proporção chega a 100%.

Dessa forma, estão nos planos do governo chinês promover mudanças no setor de segurança social e realizar uma reforma agrária que enriqueça os mais de 55% da população que ainda moram no campo.

A reforma agrária está sendo discutida nesta semana por líderes do partido Comunista na capital e propõe, entre outras mudanças, solucionar o impasse sobre o direito dos camponeses de possuir a terra que cultivam.

Atualmente os trabalhadores rurais plantam em áreas arrendadas do governo ou que pertencem a cooperativas ligadas ao estado.

"Essa reforma vai ajudar a estimular a confiança entre os consumidores que trabalham no campo a curto prazo, encorajar investimento e aumentar a produtividade rural a longo prazo", afirmou ao jornal South China Morning Post Wang Qing, analista do banco Morgan Stanley.

Além disso, economistas esperam ver Pequim estimular obras desenvolvimentistas em infra-estrutura para a geração de empregos e anunciar em breve cortes de impostos.

Commodities
"Os Estados Unidos são os grandes compradores de manufaturas, a China é uma grande fornecedora deles. A China é a grande compradora de commodities e o Brasil é o grande fornecedor dela. Sendo assim, a desaceleração das exportações chinesas está atrelada à desaceleração das exportações brasileiras", simplifica Dong Tao.

Com a reforma agrária, a produção doméstica de soja poderá aumentar, o que diminuirá as vendas do grão brasileiro à China.

Além disso, o minério de ferro, outro importante produto da pauta exportadora brasileira, já dá indícios de queda nas vendas.

De acordo com Chan, embarques do minério para China estão sendo suspensos no mundo todo, inclusive na Austrália.

Chan ressalta que "cerca de 70 milhões de toneladas de ferro estão estacionadas nos portos da China aguardando pelo consumo", o que justifica redução nas importações.

Isso se deve à queda nas vendas e no processamento de aço das pequenas siderúrgicas chinesas, que não conseguem obter crédito para operar, e também ao esfriamento do mercado imobiliário.

A venda de imóveis nas grandes cidades recuou 50% no último ano, porém o setor não chega a enfrentar uma bolha especulativa de proporções americanas, pois na média, desde 2000, o preço das propriedades vem diminuindo em relação à renda dos chineses.

Ferro brasileiro
Executivos da brasileira Companhia Vale do Rio Doce deverão vir à China na próxima semana para discutir um possível acordo de elevação no preço do minério de ferro, segundo informações da Bloomberg publicadas pelo South China Morning Post.

"Não acredito que eles terão poder de barganha para exigir que a China pague o valor que eles querem. A situação não está para aumento de consumo", afirmou Chan.

Atualmente o preço da tonelada importada do Brasil e entregue em portos da China varia entre 770 e 800 yuan (R$254 a R$264), enquanto o minério chinês custa 850 yuan (R$281), segundo analistas.

Entretanto, o custo do transporte do ferro brasileiro dentro da China faz com que o preço final da matéria-prima importada seja maior que a extraída localmente.

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