China impõe toque de recolher em cidade marcada por violência étnica

As autoridades chinesas impuseram um toque de recolher noturno em Urumqi, capital da região autônoma de Xinjiang, em meio a uma crescente onda de tensão entre grupos étnicos locais. Nesta terça-feira, a polícia teve que usar bombas de gás lacrimogêneo para dispersar uma multidão de milhares de chineses de etnia han que saíram pelas ruas da cidade armados de facões e pedaços de pau, destruindo lojas e barracas pertencentes a membros da etnia uigur.

BBC Brasil |

Os chineses han diziam estar respondendo à onda de violência promovida por uigures no fim de semana.

O governo chinês diz que 156 pessoas - a maioria da etnia han - morreram nos distúrbios que eclodiram no domingo em Urumqi. Segundo as autoridades, manifestantes uigures atacaram veículos e em seguida passaram a atacar membros da etnia han e a enfrentar forças de segurança. Mais de mil pessoas teriam ficado feridas.

Já grupos uigures dizem que o número de mortos foi bem maior e que cerca de 90% dos mortos eram uigures.

Reuters

Chinês observa fila de soldados em rua da província chinesa de Xinjiang

Na origem dos protestos de domingo estaria a morte de dois migrantes uigures por um homem da etnia han (maioria na China) em uma briga, no mês passado, em uma fábrica na cidade de Shaoguan, na província de Guangdong, no sul da China.

Terça-feira

Poucos antes dos protestos dos chineses han nesta terça-feira, cerca de 200 membros da etnia uigur saíram às ruas, em uma demonstração que o repórter da BBC em Urumqi, Quentin Sommerville, chamou de "ato extraordinário de desafio" às autoridades, em uma das regiões mais controladas da China.

O correspondente da BBC disse que o protesto foi visto por jornalistas estrangeiros quando eles estavam sendo levados pelo governo para ver partes da cidade destruídas pela violência dos últimos dias.

A manifestação foi encabeçada por mulheres, muitas de idade avançada, que confrontaram a polícia de choque para reivindicar a libertação dos presos no dia anterior. A polícia ameaçou usar jato d'água e conteve o protesto.

Na segunda-feira, as forças de segurança dispersaram outras 200 pessoas que protestavam do lado de fora da maior mesquita chinesa em Kashgar, segunda cidade da região. Líderes uigures no exílio acusaram os policiais de abrir fogo indiscriminadamente durante o que chamaram de "um protesto pacífico".

Confrontos

O governo de Xinjiang culpou os separatistas uigures que vivem no exílio por orquestrar os ataques contra os chineses da etnia han.

Já grupos uigures insistem que seu protesto foi pacífico e que eles foram vítima de violência por parte do Estado, com a polícia atirando indiscriminadamente contra os manifestantes em Urumqi.

A província de Xinjiang, uma região montanhosa e desértica que faz fronteira com a Ásia central, é majoritariamente muçulmana, e a comunidade uigur reclama do domínio do governo central chinês. A região tem sido palco de tensões há muitos anos.

Em Urumqi, as informações são de que os serviços de telefonia celular estão bloqueados e as conexões de internet foram suspensas, ou estão lentas.

Testemunhas e a mídia estatal disseram que os manifestantes destruíram barreiras e atacaram casas e veículos, além de entrar em choque com a polícia no domingo. A TV estatal mostrou imagens de manifestantes batendo e chutando pessoas caídas no chão.

Também há fortes imagens do que parecem ser chineses da etnia han sentados, com olhar atordoado e sangue correndo por seus rostos. A polícia afirma que alguns corpos foram recolhidos nas ruas depois dos choques. Outros, morreram nos hospitais.

Acusações

A agência oficial de notícias chinesa Xinhua informou na segunda-feira que a polícia acredita que "agitadores" estariam "tentando organizar mais choques" em outras cidades em Xinjiang.

Liu Weimin, porta-voz da Embaixada Chinesa em Londres, disse à BBC que forças extremistas estão envolvidas.

"O governo local de Xinjiang tem provas de que forças extremistas dentro e fora da China se comunicaram intensivamente antes do incidente eclodir no domingo", disse ele.

Rebiya Kadeer, a presidente exilada da Associação Americana Uigur, negou as acusações do governo chinês de que ela tenha incitado a violência.

Ela afirmou ter tomado conhecimento dos protestos através de websites e só ligou para sua família para aconselhá-los a ficar fora das manifestações.

Alguns analistas afirmam que os protestos de domingo foram os mais sérios na China desde o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989.

A violência causou preocupação internacional. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que os dois lados exercitem a moderação. Os governos americano e britânico reforçaram o pedido.

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