China fica em primeiro lugar também no pódio da repressão nos Jogos

Marga Zambrana Pequim, 25 ago (EFE).- A China não se coroou apenas como uma potência esportiva nos primeiros Jogos Olímpicos disputados no país, mas, em 15 dias, bateu também todos os recordes de detenções por protestos e por censura, descumprindo suas promessas olímpicas e confirmando o caráter autoritário do regime, segundo fontes.

EFE |

A Embaixada dos Estados Unidos em Pequim exigiu hoje ao Governo chinês a libertação imediata de oito americanos que se encontram em detenção administrativa de dez dias, após participarem de protestos pacíficos pró-Tibete.

Entre eles está o artista James Powderly, de 31 anos, co-fundador do grupo Graffiti Research Lab, o criador do blog "Alive in Baghdad", Brian Conley, de 28, e o fotógrafo Jeffrey Rae, de 28.

Os três foram detidos em 20 de agosto junto com outros três americanos por participarem de protestos pela repressão chinesa no Tibete.

As autoridades devem libertá-los em 30 de agosto, um dia antes de soltar outros dois americanos, também detidos por desdobrar um cartaz que dizia "Tibete Livre" em frente ao Estádio Nacional.

A embaixada afirmou que as detenções de até 14 dias são aplicadas em casos de estrangeiros envolvidos em delitos menores, e que esta é a primeira vez que essa medida é utilizada durante os Jogos, enquanto o Birô de Segurança Pública explicou que eles foram detidos por "perturbar a ordem".

"Estamos decepcionados por a China não ter aproveitado a oportunidade dos Jogos para demonstrar maior tolerância e abertura", disse a embaixada em comunicado, que pediu às autoridades chinesas que demonstrem respeito aos direitos humanos, entre eles a liberdade de expressão e de religião, durante e depois deste evento.

Os mais de 50 ouros conquistados pela China - ainda longe dos 83 dos EUA em 1984 ou dos 54 da extinta União Soviética em 1988 - era uma ambição do Partido Comunista da China (PCCh).

A idéia era não apenas se legitimar como responsável pelo "milagre chinês", mas também avivar um furor patriótico diante do aumento da desigualdade e do descontentamento.

O PCCh quis garantir que os Jogos Olímpicos de Pequim, os segundos realizados sob um regime autoritário desde os de 1936, em Berlim, não resultariam em uma revolução política, como ocorreu em Seul (1988), e, para isso, não poupou mão forte com a dissidência que sobrevive à maquinaria de propaganda mais potente do mundo.

A Campanha por um Tibete Livre informou hoje que realizou com sucesso oito protestos pacíficos pedindo sua independência, um dos assuntos mais duros para o regime autoritário chinês. Nos atos, 55 ativistas, a maioria estrangeiros, foram detidos e deportados.

O Clube de Correspondentes Estrangeiros na China (FCCC), que representa mais de 300 profissionais, informou hoje que desde a abertura do centro de imprensa olímpico, em 25 de julho, foram registrados 30 casos de repressão ao trabalho de repórteres e outros 20 estão sendo verificados.

Só entre 1º de janeiro e 20 de agosto, o FCCC confirmou 152 casos de interferências ao trabalho desses profissionais, quase o mesmo número que em todo o ano de 2007.

"O FCCC está alarmado com o uso da violência, pela intimidação e pelo assédio" fora dos estádios, declarou seu presidente, Jonathan Watts.

A tendência mais perturbadora foi o aumento de ataques físicos aos repórteres ou da destruição de suas câmeras, com pelo menos dez incidentes no último mês, mais que o dobro do ano passado.

Apesar de, durante os Jogos, ter sido possível um maior acesso aos sempre inacessíveis funcionários chineses, o FCCC avaliou que "o Governo anfitrião não cumpriu sua promessa olímpica de que a imprensa teria liberdade total para informar".

A censura na internet, o assédio aos chineses que davam entrevistas, a proibição de se exibir imagens de protestos e a espionagem de jornalistas demonstram que o espírito o qual o Comitê Olímpico Internacional (COI) queria embutir na China não funcionou em Zhongnanhai, sede do Governo chinês.

Outro caso ocorreu com as três zonas habilitadas para "protestos" por ocasião dos Jogos, que não só permanecem vazias após terem recebido 77 diligências, como pelo menos 15 chineses que tramitaram o processo foram detidos, incluindo duas idosas de mais de 70 anos que serão enviadas a campos de trabalho.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras acusou o Governo chinês de "cinismo", e o COI de inoperante, por não ter conseguido fazer com que Pequim respeitasse o espírito olímpico.

O presidente do COI, Jacques Rogge, se defendeu hoje dizendo que a instituição que representa "não pode forçar mudanças em nações soberanas ou resolver todos os males do mundo". EFE mz/ab/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG