China enfrenta desafio mundial ao sediar Olimpíada de 2008

¿A Olimpíada busca criar uma maneira de vida baseada na alegria do empenho, o valor educacional do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais¿, parágrafo 1. ¿O objetivo da Olimpíada é colocar o esporte a serviço do desenvolvimento harmonioso do homem, com a visão de promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana¿, parágrafo 2. ¿Qualquer forma de discriminação em relação a um país ou pessoa em termos de raça, religião, política, gênero ou qualquer outro tipo é incompatível em pertencer ao movimento olímpico¿, parágrafo 5.

Juliana Galzerano, repórter Último Segundo |

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As frases acima foram retiradas dos princípios fundamentais escritos na cartilha olímpica. A Olimpíada deste ano, porém, que será realizada em agosto na China, destaca mais uma vez que a linha que separa o esporte da política é muito tênue.

Para o jornalista Caio Blinder, os jogos olímpicos sempre foram politizados. Hitler mostrou, na Olimpíada de 1936, que política e esporte correm de mãos dadas, afirmou Blinder.

 Aquele ano foi um momento de mobilização nacional para mostrar que a Alemanha, derrotada na primeira guerra mundial, estava se recuperando e era um novo país. Para evitar os boicotes que os países estavam ameaçando realizar, o líder nazista mandou retirar todas as menções ao anti-semitismo. Revistas foram tiradas de circulação e cartazes e placas foram recolhidos para que a impressão dos visitantes e da imprensa internacional fosse outra.

Já em 1980 foi a vez de a antiga União Soviética sediar a Olimpíada. Em plena Guerra Fria, o país decidiu invadir o Afeganistão e, por essa razão, os Estados Unidos e mais 60 países que os seguiram não compareceram aos jogos. Como resposta, em 1984, a União Soviética e mais alguns países do chamado bloco comunista decidiram não comparecer ao evento que foi realizado em Los Angeles.

Neste ano, os jogos olímpicos nem começaram, mas harmonia, até o momento, como dita a cartilha, está bem distante das cenas de protestos e ameaças de boicote que se espalharam pelo mundo. Muitas organizações e governos acusam a China de violar os direitos humanos e defendem que o país deveria mudar suas políticas para agir mais de acordo com padrões aceitos universalmente.

Direitos humanos na China

Todos os países decidem sediar uma Olimpíada para que o evento esportivo seja também um palco para seus interesses internacionais. Cabe ao Comitê Olímpico Internacional (COI) prestar atenção no que acontece internamente e organizar os jogos. Isso porque a Olimpíada significa alta visibilidade. A China, porém, fez um tremendo erro de cálculo querendo usar os jogos para fins políticos, pois agora seus adversários estão politizando os jogos em benefício próprio, afirma Blinder.

Apesar de a China ser conhecida por suas violações aos direitos humanos desde a entrada do Partido Comunista ao poder em 1949, o mundo agora começa a prestar mais atenção e pedir por um fim.

As acusações são várias. De acordo com um relatório feito pela Anistia Internacional, em 2007, milhares de pessoas são presas todo ano ¿ entre advogados, jornalistas, ativistas dos direitos humanos e até mesmo aqueles que freqüentam igrejas não-oficiais - sem direito a defesa e sem julgamento. Muitos vivem sob prisão domiciliar.

A informação é controlada pelo governo. Segundo a organização, vários jornais são fechados, censurados e os meios de comunicação internacionais só passam a circular após autorização das autoridades. Na semana passada, por exemplo, as redes CNN e BBC saíram do ar por causa dos protestos realizados em Paris durante a passagem da tocha olímpica.

Além disso, a pena de morte é uma grande preocupação. Segundo o relatório, cerca de 70 crimes são passíveis de execução. Estima-se que em 2006, último ano com dados disponíveis, 1.010 pessoas foram executadas e outras 2.790 condenadas à morte.

Promessas de mudanças

Ao conquistar o direito de realizar a Olimpíada, as autoridades chinesas assumiram um compromisso de que o evento seria uma oportunidade para desenvolver os direitos humanos no país.

Temos certeza que os jogos na China irão melhorar todas as condições sociais, incluindo educação, saúde e direitos humanos disse Liu Qi, prefeito de Pequim, em 2001, quando o governo afirmou que a situação iria melhorar. Mas, como afirmou Robert Goddin, coordenador na Ásia de campanha da organização Anistia Internacional, conforme os jogos se aproximam, vemos um aumento na perseguição a ativistas dos direitos humanos, uma prova de que não houve muito estímulo para realizar as reformas necessárias.

Goddin destaca como um progresso lento a aprovação de uma lei, em 2007, instalando a revisão final de todos os casos de pena de morte. É um progresso, mas está sendo feito muito lentamente, diz, destacando que ainda há muitas preocupações.

A censura continua grande, apesar de medidas temporárias que permitem que jornalistas estrangeiros viagem pelo país (há mais teoria do que prática). Opositores ainda são presos junto com milhares de pessoas, que enviaram cartas ao Comitê Olímpico Internacional (COI) para pedir a melhoria da situação dos direitos humanos na China e condenar a expulsão ilegal de várias pessoas de suas casas.

Não fosse o bastante, as organizações internacionais têm dificuldades para acessar documentos que exponham abusos cometidos pelas autoridades, apesar do COI ter afirmado que conta com essas mesmas entidades para fazer o monitoramento.

Protestos e boicotes

Os movimentos contra a China começaram com a causa de Darfur. O apoio de Pequim ao governo do Sudão, envolvido no genocídio que ocorre na região oeste do país, sempre esteve na linha de frente dos protestos olímpicos. Esta foi a primeira mobilização engajando gente como Steven Spielberg, Mia Farrow e veteranos olímpicos, lembra o jornalista Caio Blinder.

Porém, a situação parece ter ganhado mais destaque na opinião pública e na mídia internacional após a explosão dos protestos no Tibete, sob domínio da China há mais de 50 anos.

No dia 10 de março, monges realizaram uma passeata para lembrar os 49 anos de um levante tibetano. A notícia que eles haviam sido presos pela polícia chinesa gerou uma onda de protestos que se tornou a maior e mais violenta dos últimos 20 anos. Segundo o governo exilado tibetano, mais de 100 pessoas morreram em pelo menos duas semanas de confrontos. Já o número do governo chinês não chega a 30.

Depois disso, manifestações contra o governo chinês e a favor da independência da região autônoma foram feitos pelo mundo todo. Até mesmo no Rio de Janeiro um grupo pró-Tibete fez um protesto em frente ao consulado da China, em Botafogo.

Agora a tocha olímpica faz um trajeto pelo mundo, o que está gerando protestos ainda mais explícitos. No domingo, ela passou por Londres e completou sua passagem pela cidade sob várias manifestações - o trajeto precisou até ser mudado para evitar maiores confusões. Pelo menos 35 pessoas foram presas.

Já na segunda-feira, foi a vez dos franceses expressarem sua insatisfação com a repressão chinesa. A tocha teve que ser apagada três vezes e levada de ônibus em partes do percurso para evitar que as manifestações tomassem um rumo inesperado. Os atletas franceses também fizeram sua parte, usando um distintivo que dizia Por um mundo melhor.

O problema desses protestos é o efeito negativo que eles devem gerar na China que, ao tentar esconder o assunto, pode aumentar a perseguição a ativistas políticos e, de maneira discreta, também aumentar a repressão, diz Blinder. Isso porque a China não tem a tradição de ceder em questões territoriais internas e o Tibete é de extrema importância estratégica para o país, pois, além de sempre ter sido considerado parte dele, é uma área de influência há centenas de anos.

Os governos também estão tomando posições no assunto. A premiê da Alemanha, Ângela Merkel, foi a primeira chefe de Estado a declarar um boicote à cerimônia de abertura. Nicolas Sarkozy, presidente da França, disse que existe a possibilidade de fazer o mesmo e o premiê britânico, Gordon Brown, também já anunciou que não irá comparecer. O Parlamento Europeu irá pedir para os líderes da UE que não comparecessem caso as autoridades chinesas não dialoguem com o líder exilado Dalai Lama. Segundo o site da embaixada chinesa no Brasil, essa conversa só ira ocorrer quando o tibetano abandonar seu pedido pela independência, usar sua influência para frear a violência e reconhecer a região como parte inseparável da China.

Nos Estados Unidos, o presidente americano George W. Bush já afirmou que pretende comparecer para mostrar apoio aos atletas de seu país, apesar do pedido da líder democrata no Senado, Nancy Pelosi, e da pré-candidata à presidência Hillary Clinton para ele não comparecer. O Brasil também pretende manter as boas relações com a China. Em uma conversa realizada pelo telefone na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim afirmou que considera o Tibete uma parte inalienável da China e defende que tudo deve pertencer a um país só. O comitê olímpico brasileiro rejeitou o boicote aos jogos por motivos políticos.

Para Blinder, esses boicotes fazem parte de uma espécie de jogo duplo: os líderes mundiais querem mostrar que tratam com carinho os direitos humanos sem serem radicais a ponto de prejudicarem, de forma severa, as relações econômicas e estratégicas de seus países com a China. A opinião pública entra nesse jogo com sua capacidade de mobilização para pressionar o país, mas provavelmente nada mais será feito, afirma.

Goddin, da Anistia Internacional, ressalta que é neste ponto que está o maior desafio da China. Quando o mundo tirar os olhos de Pequim, que o país não sofra um retrocesso dos pequenos avanços conquistados, afirma.

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