Os países do Golfo Árabe, junto a China, Rússia, França e Japão, estariam planejando substituir o dólar por uma cesta de moedas nas transações de petróleo, segundo reportagem do jornal britânico The Independent, publicada nesta terça-feira. De acordo com o jornal, já foram realizadas algumas reuniões secretas com ministros das finanças e presidentes de bancos centrais, inclusive no Brasil, para discutir o plano.

As informações, no entanto, foram negadas por líderes árabes e russos, segundo a agência de notícias Reuters, e teria provocado queda na cotação do dólar.

Entre as moedas da cesta, estariam incluídos o iene japonês, o yuan chinês, o euro, ouro e uma moeda única - atualmente em estágio de planejamento - dos países do Conselho de Cooperação do Golfo, que inclui a Arábia Saudita, Abu Dhabi, Kuweit e Catar.

O jornal, no entanto, não explica como nem quando essa mudança teria lugar.

"Os planos, confirmados para o Independent por fontes bancárias chinesas e do Golfo Árabe em Hong Kong, podem ajudar a explicar a repentina alta do ouro, mas também são um presságio da extraordinária transição dos mercados em dólar dentro de nove anos", afirma o jornal.

Os Estados Unidos devem reagir para evitar que isso ocorra, diz a reportagem, o que poderia render uma "guerra econômica entre EUA e China sobre o petróleo do Oriente Médio, mais uma vez tornando os conflitos da região em uma batalha para maiores poderes e supremacia".

"O declínio do poder econômico americano ligado à atual recessão global já havia sido implicitamente reconhecido pelo presidente do Banco Mundial Robert Zoellick. 'Um dos grandes legados desta crise pode ser o reconhecimento de mudanças nas relações de poder econômico', disse ele em Istambul antes das reuniões desta semana do FMI e do Banco Mundial."

Mas, segundo o Independent, foi o novo e extraordinário poder econômico da China - aliado à raiva dos países produtores e consumidores de petróleo com o poder americano de interferir no sistema financeiro internacional - que provocou as discussões envolvendo os países do Golfo.

"O Brasil demonstrou interesse em colaborar com pagamentos de petróleo em outra moeda que não o dólar, assim como a Índia", afirma o jornal, para quem a China, no entanto, é a mais entusiasmada, principalmente por causa de seu enorme volume de comércio com o Oriente Médio.

Os chineses, inclusive, acreditariam que as discussões para a mudança de sistema já estão tão avançadas, que seriam irreversíveis, afirma a reportagem.

Editorial

Em editorial separado, o Independent afirma que a transição do dólar é o presságio de uma nova ordem mundial e reflete as mudanças na economia mundial.

"Não é difícil ver os motivos para que os exportadores de petróleo deixem o dólar: o valor da moeda americana caiu drasticamente desde a desaceleração do ano passado. E está aumentando o medo, por conta da crescente dívida pública americana, de que a moeda desvalorize mais ainda. Eles não querem vender suas mercadorias em troca de uma moeda cujo futuro é incerto."

Segundo o editorial, até agora fazia sentido que o comércio internacional fosse feito em dólares, já que os Estados Unidos era o poder dominante e tinha transações comerciais com praticamente todos os países.

"Mas agora os EUA já não são o poder dominante de outrora. A crise financeira deixou o país atrelado a significativas dívidas domésticas e do governo e reduziu drasticamente as perspectivas de crescimento."
O jornal lembra, no entanto, que a determinação da China em aumentar suas exportações a todo custo foi o maior fator da instabilidade econômica mundial nos últimos anos.

Os superávits comerciais e a manipulação de Pequim para manter o iuan desvalorizado forçaram os países ocidentais a incorrer em grandes déficits comerciais, e sua pressão teria contribuído para a crise financeira do ano passado, diz o editorial.

"Faz sentido mudar gradualmente do dólar para outras moedas. Mas sem o compromisso de governos mundiais - tanto de países ricos como em desenvolvimento - para reduzir os desequilíbrios desestabilizantes do comércio global, nós vamos entrar em uma nova era de incertezas, e uma que poderia fazer com que tivéssemos saudades dos dias das dominantes verdinhas", conclui.

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