China desafia a opinião pública internacional ao decretar prisão de ativista

Antonio Broto Pequim, 3 abr (EFE).- O dissidente chinês Hu Jia, ativista dos direitos humanos, foi condenado hoje pela justiça da China a três anos e meio de prisão por subversão, uma sentença qualificada de provocação por grupos como os Repórteres sem Fronteiras (RSF) e que ameaça movimentar novamente os preparativos para os Jogos Olímpicos.

EFE |

A sentença da justiça chinesa, que também inclui a privação dos direitos políticos do réu por um ano, acontece em um momento no qual ainda não diminuíram as críticas internacionais e os pedidos de boicote às Olimpíadas após o início do conflito no Tibete, em março.

Hu Jia, segundo a sentença que foi publicada parcialmente pela agência estatal chinesa "Xinhua", "difamou o sistema político e social chinês e instigou a subversão contra o Estado, o que, de acordo com a lei da China, é um crime".

Várias entrevistas que Hu - uma das vozes mais críticas à Pequim nos últimos anos - concedeu à imprensa estrangeira, assim como artigos em sites, foram usados para acusá-lo de um crime que é aplicado, com freqüência, para dissidentes e presos políticos na China.

A decisão judicial acrescenta que, considerando que o ativista confessou seu crime, a pena foi "benévola", apesar de seus advogados terem afirmado que o chinês se declarou inocente durante o processo.

Hu Jia, nomeado ano passado ao prêmio Sakharov, dado pelo Parlamento Europeu, recebeu a condenação com serenidade. "Não é o resultado que desejávamos, nem o ideal, mas também não é inesperado, considerando casos similares anteriores", disse à Agência Efe um de seus advogados, Li Jingsong.

"Hu é um homem simples e bondoso que chegou a um nível em que ama a todos, inclusive seus inimigos, e perdoará as pessoas que o prejudicaram", afirmou o advogado.

Outro representante da defesa do dissidente, Li Fangping, disse que tem ainda dez dias para apelar da sentença, apesar de ainda não ter certeza se fará isto.

Hu sofre de forma crônica de hepatite e foi discriminado em toda sua vida por isto, o que o levou a começar seu ativismo em defesa das pessoas doentes e também de portadores do HIV.

Junto com um outro advogado, Teng Biao, Hu escreveu um artigo com o título de "Os Jogos Olímpicos e a China real", no qual documentam numerosas violações aos direitos humanos cometidas pelas autoridades e pedem à comunidade internacional que pressione Pequim por causa da realização do evento esportivo.

O dissidente chinês e sua esposa Zeng Jinyan, de 24 anos e também ativista, foram premiados em dezembro de 2007 pela RSF, organização que, ao lado de outras como a Anistia Internacional (AI), pediu repetidamente sua imediata libertação.

A RSF reagiu rapidamente e com dureza à condenação de Hu, que qualificou de "provocação" da China.

Em comunicado, a organização de jornalistas atacou também a União Européia (EU) e o Comitê Olímpico Internacional (COI), acusando-os de serem passivos enquanto "o Governo chinês silenciava um porta-voz das vítimas da repressão".

A organização reiterou sua chamada a "todos os chefes de Governo, chefes de Estado e famílias reais para que boicotem a cerimônia de abertura dos Jogos", que será realizada no dia 8 de agosto.

A organização em defesa de direitos humanos China Human Rights Defenders (CHRD), sediada em Hong Kong, também afirmou estar contra o COI após saber da sentença, dizendo que o comitê "não deve fechar os olhos" diante da perseguição política no país asiático.

A organização colocou em dúvida a integridade moral do COI e o criticou por defender os princípios olímpicos, enquanto, ao mesmo tempo a China administra os Jogos de uma forma apolítica.

A resposta oficial da China às críticas foi a habitual: em entrevista coletiva o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores Jiang Yu disse que a sentença "cumpre a lei chinesa, em que todos os cidadãos são iguais".

Sobre as críticas das ONGs, Jiang afirmou que a lei da China "não pode parar pelos Jogos Olímpicos" e exigiu que os críticos "não interfiram nos assuntos internos do país com a desculpa de defenderem os direitos humanos". EFE abc/rr/fal

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