A China terá que transformar em consumidores mais da metade de sua população, que hoje ainda vive em áreas rurais, se quiser manter suas altas taxas de crescimento e ocupar uma posição de liderança econômica mundial já na próxima década. O modelo de desenvolvimento baseado nos pilares de exportações e investimentos externos, adotado pelo país desde a abertura econômica há 30 anos, já mostra sinais de esgotamento.

Mesmo antes da crise econômica mundial, as autoridades chinesas já vinham adotando medidas para fomentar o mercado interno, para que o consumo se transforme no principal motor de seu crescimento.

A queda acentuada nas exportações e nos investimentos provocada pela crise, porém, deve precipitar a alteração de rumo que pode mudar a cara do país até 2020, transformando a China de "fábrica do mundo" em "mercado do mundo".

"O modelo de sucesso usado pela China quando ainda era uma economia pequena não funciona mais agora, quando ela é uma das maiores economias do mundo", diz o diretor do Banco Mundial para o país, David Dollar.

O ex-congressista Cheng Siwei, presidente da Associação Nacional para a Construção Democrática, uma das oito agremiações de apoio do Partido Comunista dentro do Congresso Nacional do Povo, acha que esse é um bom momento para mudanças:
"No idioma chinês, a palavra crise é formada pelos caracteres que representam perigo e oportunidade. Então, apesar do perigo, o momento é de oportunidade também", observa Cheng.

Para Cheng, um dos principais desafios do governo é mudar o hábito de poupança dos habitantes do país. Os chineses estão entre os maiores poupadores do mundo - seja para garantir a aposentadoria, para pagar o estudo dos filhos ou para se preparar em caso de doenças.

Ele afirma que a China precisa fazer com que seus cidadãos poupem menos e consumam mais, se quiser fomentar seu mercado interno e transformar o consumo no principal motor de seu desenvolvimento.

"Dizemos que no Ocidente as pessoas gastam hoje o que vão ganhar amanhã e aqui poupamos hoje para gastar amanha", observa Cheng. "Mas durante a crise é muito importante estimular o consumo".

Para alcançar esse objetivo, a China vem adotando políticas como o estabelecimento de aposentadoria para a população rural. A renda média nas cidades é hoje três vezes maior do que a de centenas de milhões que vivem no campo.

Além disso, o quase inexistente serviço de seguridade social precisa ser reformado para garantir acesso aos serviços básicos de saúde, educação e aposentadoria.

Crescimento em baixa
A crise econômica mundial vem afetando a China de maneira intensa, apesar de o governo manter seu discurso otimista e suas previsões de crescimento do PIB em 8% neste ano.

O Banco Mundial reviu recentemente sua previsão de crescimento da China para este ano, para 6,5%, bem abaixo da média de 9,8% dos últimos 30 anos. No ano passado, a economia da China cresceu 9,1% após uma expansão de 13% em 2007, a maior em 13 anos.

Os setores exportadores, justamente um dos pilares do crescimento chinês nas últimas três décadas, são os mais afetados pela crise, com a redução de compras de mercados importantes como Europa e Estados Unidos.

Segundo dados do governo chinês, por exemplo, só no ano passado 4 mil fábricas de brinquedos foram fechadas, a grande maioria na província de Guangdong, a mais rica do país e onde está concentrada grande parte da produção chinesa para exportação.

Para equilibrar a situação e tentar promover o crescimento, o governo anunciou em novembro um pacote de estímulo de 4 trilhões de iuans (cerca de US$ 586 bilhões). O grosso do pacote está destinado a obras de infra-estrutura, mas ele também prevê medidas para estimular o consumo interno, como aumentos de salários, estímulo à compra de automóveis e subsídios para agricultores.

O Banco Mundial estima que até 25 milhões de pessoas possam perder o emprego na China por conta da crise. Para muitos analistas, o país não terá como manter um nível de crescimento suficiente para empregar as milhões de pessoas que chegam ao mercado de trabalho anualmente.

Segundo Chang Hee Lee, analista da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Pequim, a crise é a mais séria no mercado de trabalho da China desde o início da abertura econômica. "É uma situação muito difícil, que tem um impacto muito forte por causa da ausência de benefícios como seguro-desemprego", diz ele.

Barril de Pólvora
Num país fechado politicamente como a China, possíveis protestos populares provocados pela crise são vistos como uma ameaça potencial à liderança do Partido Comunista.

Em 1989, por exemplo, os protestos estudantis por democracia que levaram ao massacre da Praça da Paz Celestial, tiveram como pano de fundo também uma desaceleração econômica - naquele ano, o PIB do país cresceu apenas 4,1% após uma expansão de 11,3% no ano anterior.

Segundo Chang Hee Lee, da OIT, o governo chinês vem reagindo de forma pragmática à atual crise, tentando evitar a repressão aos protestos contra fechamento de fábricas e demissões em massa, por exemplo.

Além disso, greves têm sido permitidas também como maneira de permitir uma válvula de escape para a insatisfação e evitar uma explosão no futuro.

"Não há nada na lei chinesa que permita greves, mas também não há nada que proíba, então o governo pode interpretar de maneira mais conveniente em cada situação", diz Chang.

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