China acusa jornalistas de aceitar propina para acobertar acidente

Jornalistas que aceitaram propinas para ficar em silêncio e deixar de noticiar um acidente fatal em uma mina de carvão estão sendo processados pelo governo na China. Ao todo, a Justiça da província de Hebei acusa 60 pessoas - dez jornalistas e 50 autoridades locais - de esconderem a notícia sobre a morte de 34 mineiros no vilarejo de Lijiawa, condado de Yuxian, no ano passado.

BBC Brasil |

O acidente fatal aconteceu em 14 julho de 2008, pouco antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, mas só veio à tona 85 dias depois.

Uma explosão numa mina de carvão estatal causou a morte dos mineiros e de mais um oficial de resgate.

De acordo com a agência de notícias Xinhua, os chefes da mina removeram os corpos, destruíram as evidências e pagaram aos jornalistas US$ 380 mil (R$ 662 mil) para encobrir o acidente.

Familiares das vítimas também receberam dinheiro e foram ameaçados para não reportar o fato.

Identidade
As identidades dos jornalistas processados não foram reveladas, mas a imprensa estatal afirma que, segundo relatos, um deles é Guan Jian, que trabalha para a publicação de Pequim China Internet Weekly e está detido desde dezembro sob a acusação de ter aceito propina das autoridades de Yuxian.

A promotoria afirma que as autoridades teriam pago US$ 36,6 mil por um "anúncio" de duas páginas e uma "taxa de assinatura" de US$ 4,4 mil para o jornal de Guan.

Após receber o dinheiro, Guan teria destruído uma fita com informações e provas sobre o acidente.

Entre as autoridades acusadas de participar do acobertamento estão os chefes da mina, o líder do condado de Yuxian, funcionários do Departamento de Segurança do Trabalho e policiais.

Acobertamento
Casos de acobertamento de escândalos por autoridades locais não são raros na China.

Na época que antecedeu os Jogos Olímpicos, circulou uma diretriz de Pequim pedindo que governos locais "minimizassem situações que prejudicassem a harmonia do país".

Vários governos locais interpretaram a diretriz como uma carta branca para censurar ou acobertar ocorrências desfavoráveis.

Outro escândalo que só emergiu depois da conclusão da Olimpíada foi o episódio de contaminação de leite em pó infantil pelo químico melamina, incidente que matou seis crianças e deixou mais de 300 mil doentes.

Funcionários do governo de Shijiachuang, capital da província de Hebei, foram punidos por terem segurado a notícia sobre os casos da contaminação do leite.

Em agosto, um repórter da TV estatal CCTV recebeu a sentença de três anos de prisão por aceitar propinas na província de Shanxi.

Em maio, o jornalista Fu Hua foi acusado de má conduta por aceitar dinheiro para publicar uma reportagem denunciando a qualidade da construção do novo aeroporto da capital.

Acidentes fatais em minas de carvão são recorrentes no país, pois a economia depende pesadamente do mineral.

Cerca de 70% da energia consumida no país vem da queima de carvão.

Estimativas publicadas pela imprensa oficial apontam para uma melhora no número de fatalidades relacionadas às minas.

Em 2005, ocorreram cerca de 6 mil mortes e houve uma redução para 3,2 mil mortes no ano passado.

No entanto, para organizações de direitos humanos como a China Labour Bulletin, o número de fatalidades é alto e a condição de segurança dos mineiros na China é "problemática".

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