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Chilenos lembram Allende como herói e vilão

Nelson Sandoval Díaz Santiago do Chile, 26 jun (EFE).- Com o cumprimento hoje do centenário do nascimento do ex-presidente Salvador Allende, morto em 1973, os chilenos lembram seu projeto de Governo, interrompido bruscamente, e seu heroísmo, incluindo os mais jovens, que cresceram sob a sombra de uma imagem difusa do líder.

EFE |

Os chilenos que viveram os mil dias (1970-1973) em que este médico, socialista e maçom buscou construir "um socialismo à la chilena, com sabor de empanadas e vinho tinto", recordam "um Governo que deu voz ao mundo operário", segundo Arturo Martínez, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Chile.

Para o sindicalista, Allende "sempre se dirigiu aos trabalhadores", enquanto os atuais governantes "estão muito longe" deles.

Já de acordo com o dirigente e ex-candidato presidencial humanista Tomás Hirsch, com Allende "o povo chileno viu amanhecer uma esperança para a pátria, para o continente, para o mundo inteiro".

"Hoje, o Chile é das multinacionais, do poder do dinheiro, dos traidores de seu povo", completa.

Contrastando essas visões, o destacado dramaturgo Marco Antonio de la Parra sustentou, em artigo publicado esta semana em formato de carta dirigida a Allende, que "como certamente (o ex-presidente) soube, não houve socialismo, nem real, por sorte, nem utópico".

Allende certamente ainda tem detratores entre aqueles que justificam sua derrocada como a de alguém que "queria impor no Chile uma ditadura comunista".

Militares reformados e neoliberais mais radicais completam a gama de adversários de Allende, alimentados por publicações que atribuem ao falecido líder desde idéias nazistas até aspirações empresariais.

Outros ex-rivais, no entanto, mudaram de opinião ao longo do tempo, como o ex-presidente Patricio Aylwin (2000-2004), que lamentou publicamente não ter condenado o golpe de Pinochet em 1973, como fizeram outros membros da democracia cristã.

Aylwin considera que Allende "foi um democrata".

Compartilha dessa opinião a historiadora Luisa Castro, que após estudar livros, discursos e o pensamento de Allende para uma tese de pós-graduação chegou à conclusão de que o dirigente foi "um democrata convicto", segundo disse à Agência Efe.

Allende, que provinha de uma família de classe média, se destacava também pelo bom gosto na hora de se vestir, por gestos refinados e por sua fama de apaixonado.

"O doutor - ele gostava ser chamado assim - era um homem amável, que aceitava de bom grado as restrições que a segurança lhe impunha em cada uma de suas atividades", lembrou à Efe, por sua vez, Enérico García, um dos membros da equipe de segurança de Allende, e que conheceram o ex-presidente em sua intimidade.

García diz que proteger Allende foi a grande missão de sua vida e que, caso tivesse que fazer tudo de novo, o faria com gosto.

Lembrou que uma vez o presidente driblou sua equipe de segurança, integrada por jovens voluntários de esquerda, e foi a um ginásio junto com apenas três escoltas para ver uma luta de boxe.

"O povo enlouqueceu de entusiasmo quando Allende entrou. Ele subiu no ringue para saudar a todos, em situação que claramente o expunha a algum atentado ou agressão", comentou García.

No âmbito das lembranças mais íntimas, a ex-deputada socialista Carmen Lazo, para quem "os partidos que acompanharam Allende não seguiram sustentando sua memória", ainda celebra a capacidade do ex-governante de rir de si mesmo pelo fato de ter sido várias vezes candidato antes de vencer uma corrida eleitoral pela Presidência.

"Um dia, ele estava sentado, como todos, em uma pedra, e disse: 'Quando eu morrer meu epitáfio vai dizer 'aqui jaz Salvador Allende, futuro presidente do Chile'", relembra.

Para aqueles que nasceram depois da morte de Allende, o ex-presidente chileno é um ícone, embora haja divergências sobre a vigência de seu ideário.

"Ele evoca a experiência de um país diferente do que conhecemos, com projetos coletivos, capaz de sonhar, de lutar, de conquistar espaços... uma experiência possível de recuperar", ilustra a socióloga Alejandra Espinoza, de 31 anos. EFE ns/fr

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