Chile treme 1 mês após 5º maior terremoto da história

Santiago do Chile, 26 mar (EFE).- Um forte terremoto de 6,2 graus na escala Richter atingiu hoje a região de Atacama (norte do Chile) e, embora não tenha provocado vítimas nem danos materiais, trouxe à memória dos chilenos o devastador terremoto que amanhã completa um mês.

EFE |

Novos tremores no norte e fortes réplicas do terremoto de 27 de fevereiro no centro e o sul do país lembram esses dias à população chilena que vive no país com maior atividade sísmica do mundo e que no mês passado registrou o quinto terremoto mais forte da história.

Há um mês, o tremor de 8,8 graus e o posterior alarme de tsunami afetou 80% da população de um país que hoje é mais pobre e que tem a reconstrução como um enorme desafio do novo Governo de Sebastián Piñera, que assumiu a Presidência há apenas duas semanas, e estabeleceu um prazo de 60 dias para recuperar a normalidade.

Em seu discurso, Piñera defendeu "uma nova transição para construir um país desenvolvido, sem pobreza e com verdadeiras oportunidades de igualdade".

Por outro lado, após o terremoto, os números divulgados sobre perdas e vítimas foram confusos, o que obrigou o Executivo a esclarecer seus números. Os mortos registrados são de 342 corpos identificados e os danos materiais de US$ 30 bilhões.

Paralelamente, começou a revisão de responsabilidades nos organismos governamentais por não alertar a tempo, assim como nos tribunais, onde já se apresentam os primeiros processos judiciais contra erros no aviso do tsunami no litoral da região do Maule e de Bío-Bío.

Antes da catástrofe, a região de Bío-Bío, uma das mais prejudicadas, apresentava índices de pobreza de 20,68% de sua população, o dobro da registrada na região metropolitana de Santiago, fixada em 10,55%, segundo a Pesquisa de Caracterização Socioeconômica Nacional.

"Os números vão piorar. A pobreza se mede pelas receitas e o povo que perde a riqueza, como todos os desabrigados, fica diretamente na pobreza", explicou à Agência Efe Leonardo Moreno, diretor da Fundação para a Superação da Pobreza no Chile.

Entre os desabrigados, que somam 800 mil, também se encontram os que, apesar de continuaram recebendo uma pensão, perderam todo o dinheiro. No caso dos idosos, isso significa perder tudo e não ter tempo de recuperar.

Para Moreno, a principal necessidade do Governo é que não há um olhar global que envolva os processos de emergência e o plano de reconstrução.

Uma opinião que compartilha Amerigo Incalcaterra, chefe do escritório regional do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos no Chile, que destacou que as regiões afetadas são as mesmas que "tradicionalmente não se beneficiaram do Estado".

"Muitas vezes vemos ações assistencialistas, que estão em uma fase de emergência, mas na segunda fase temos grandes possibilidades de reorientar toda uma política na região de uma maneira muito mais efetiva", explicou o funcionário à Agência Efe.

Nesse sentido, Incalcaterra pediu que "não se esconda com essa ajuda uma realidade que já existia, mas se busque abranger toda a realidade de uma região que sempre desejou ter melhores condições de vida".

O passo seguinte é definir como financiar e implementar a fase de reconstrução do país, para o que o Executivo continua cogitando opções como aumentar o royalty do setor de mineração ou a carga tributária.

Passadas as primeiras semanas, a solidariedade, os cartazes de "Força Chile" e o voluntariado vão desaparecendo da vida cotidiana e possibilitando a recuperação de uma desejada normalidade.

No entanto, o programa televisivo beneficente Teletón, realizado entre 5 e 6 de março para arrecadar dinheiro aos desabrigados, conseguiu-se mais de US$ 87 milhões, o triplo do previsto inicialmente.

"No Chile, estamos muito acostumados às doações via responsabilidade social das empresas, mas é importante que seja o Governo a colaborar e distribuir a ajuda em planos mais integrais, através dos impostos", especificou o representante da Fundação para a Superação da Pobreza no Chile.

Sebastián Troncoso, um bombeiro voluntário de Santiago, que durante semanas esteve trabalhando nas cidades de Constitución e Concepción, explicou à Agência Efe que a região mais devastada continua sem água potável, o que dificulta enormemente o desenvolvimento das atividades cotidianas.

"Em Constitución, serão necessários anos para reconstruir a devastação", afirmou.

Troncoso se mostrou preocupado porque, como na capital chilena tudo funciona com aparente normalidade, o país começa a esquecer que a tragédia continua latente.

Enquanto 10,5 mil pessoas continuam sem água na região de Bío-Bío e outras tantas passam as noites em tendas de campanha, os chilenos se preparam para a chegada do inverno e das chuvas, que novamente prejudicarão os mais pobres.

Um internauta que comentava na internet o fato de que as casas mais humildes foram as mais destruídas, resumiu a situação dizendo: "não é o terremoto que mata as pessoas, mas as condições em que vivem". EFE rt/sa

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