Gerard Soler Santiago do Chile, 13 mai (EFE) - A estabilidade política e a prosperidade econômica alcançadas pelo Chile estão gerando um grande fluxo de imigrantes latino-americanos que vêem no país andino a nova Terra Prometida antes de, em muitos casos, irem à Europa. Com uma renda per capita de US$ 8.900 e crescimento sustentado durante a última década superior a 5%, o Chile passou de exportador de mão-de-obra a destino de trabalhadores peruanos, bolivianos, equatorianos, argentinos e colombianos.

Em 1999, havia no Chile 105 mil imigrantes, segundo o censo realizado pelo Instituto Nacional de Estatística. Mas, em 2002, esse número subiu para 185 mil e, de acordo com recentes estimativas das autoridades migratórias, em 2008 os estrangeiros no país passam dos 290 mil, 1,6% da população total.

"Desde a recuperação da democracia até agora, tivemos crescentes níveis de tranqüilidade, paz social, crescimento econômico sustentado, melhoras nas condições sociais e um desenvolvimento político, social e cultural", explicou à Agência Efe o subsecretário do Interior chileno, Felipe Harboe.

"Isso é muito atraente, particularmente para estrangeiros de países vizinhos", acrescentou.

No entanto, também há outros fatores que motivaram a chegada de estrangeiros ao Chile.

Carolina Stefoni, pesquisadora especialista em migrações da Universidade Alberto Hurtado, aponta como um desses fatores o paulatino fechamento das fronteiras nos Estados Unidos e Europa.

"Cada vez é mais caro chegar a esses países e o Chile aparece como uma alternativa para os imigrantes", afirmou à Efe.

Apesar da boa saúde do Chile, a investigadora sustenta que o fenômeno também se explica porque a Concertação, a coalizão de centro-esquerda que governa no Chile desde 1990, realizou um excelente trabalho propagandístico.

Também foi determinante a política de portas abertas do Governo, que facilitou a entrada de milhares de imigrantes, apesar de Harboe ressaltar que esta só se aplica aos que estão em situação regular.

Os imigrantes peruanos vêm em sua maioria do litoral norte e, embora não sejam das classes mais pobres, desempenham trabalhos precários na construção e no setor serviços.

Os equatorianos que emigram para o Chile são, em sua maioria, profissionais, enquanto os procedentes da Bolívia trabalham no setor agrícola e os colombianos fogem da violência política em seu país, comenta Carolina Stefoni.

Richard Guerrero, um peruano de 34 anos, defende a chegada dos imigrantes, critica os chilenos que lhes acusam de tirar-lhes os postos de trabalho e desmistifica a boa saúde econômica do Chile.

Os escritórios do Departamento de Estrangeiros e Migração são palcos de uma movimentação constante.

Dezenas de imigrantes abarrotam os corredores e as salas de espera para pedir ou, no melhor dos casos, receber os vistos de residência.

A peruana Iraira Belloa chegou há cinco anos ao Chile com expectativas que não se cumpriram, embora, junto a sua família, desfrute da tranqüilidade proporcionada por sua vida no país.

A crescente chegada de imigrantes ao Chile é um fato objetivo que gera dúvidas como, por exemplo, se a sociedade e as instituições chilenas estão preparadas para acolher tantas pessoas.

A investigadora Carolina Stefoni sustenta que o Chile "não tem uma política migratória" de acordo com os novos tempos e a atual situação do país.

Mas o Governo vê as coisas de outra maneira. Felipe Harboe anuncia que um novo programa migratório está a ponto de ser promulgado.

Esta legislação migratória "dá conta da nova realidade, entende que o Chile tem uma política de portas abertas com forte ênfase na regularização", explica o subsecretário do Interior.

O auge da imigração no Chile não só exige um esforço para a administração, mas também põe à prova a capacidade de a sociedade chilena conviver com outras culturas e costumes.

"Este país tem que se acostumar a um processo de multiculturalismo", opina Harboe, acrescentando que, devido ao secular isolamento geográfico, "os chilenos estão acostumados a verem a si mesmos".

À espera da nova lei migratória ou de uma improvável nova regularização em massa, os recém-chegados continuarão buscando no Chile sua oportunidade de seguir em frente.

A Europa, por enquanto, fica muito longe. EFE gs/rb/db

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