'Cheguei a pensar que Deus era um monstro', diz Ingrid Betancourt

Ex-refém das Farc fala ao iG sobre os momentos de maior tensão, angústia e medo no cativeiro, onde esteve por mais de seis anos

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

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A ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt, que passou mais de 6 anos como refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia
Mais de dois anos depois da libertação , as emoções ainda estão frescas e é difícil não se emocionar ao relembrar o medo e a descrença que faziam parte da rotina no cativeiro. Com os olhos marejados, Ingrid Betancourt ainda tem a voz embargada quando fala do sentimento de injustiça que sentiu quando soube da morte do pai, Gabriel Betancourt, no primeiro dos mais de seis anos de cativeiro. “Cheguei a pensar: o Deus em que creio é um Deus de amor, e esse é um monstro. Não quero crer em um monstro que permite isso”, contou a ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)

Em entrevista ao iG , a franco-colombiana que esteve em poder das Farc entre fevereiro de 2002 e julho de 2008, lembrou dos piores momentos como refém da guerrilha colombiana, e caracterizou como necessário o ato de revisitar o passado delicado para escrever o livro "Não há silêncio que não termine" . “O passado está impregnado em nós. Quando cheguei à liberdade não conseguia contar a ninguém, mas houve um momento em que esse silêncio se tornou muito pesado.”

Sujeita a “maus-tratos, humilhações e sadismo dos sequestradores”, a ex-senadora e candidata à presidência, que fazia campanha quando foi capturada, disse que os momentos mais estressantes eram os de tentativa de fuga, além das brigas com os guardas e entre os próprios reféns. “As brigas acabavam com qualquer equilíbrio que ainda podia existir em uma situação precária como a de um sequestro. Qualquer olhar ou palavra mal dita já resultava em um ambiente tenso. Estávamos muito vulneráveis.”

No livro, em que questiona a postura no cativeiro de sua assessora Clara Rojas , Ingrid garante que a intenção não foi criticar, mas sim mostrar sua reação ao comportamento de Clara, que engravidou de Emmanuel quando estava presa. “Clara e eu enfrentamos o sequestro de maneiras opostas. Eu queria escapar o tempo todo, era uma obsessão para mim. Mas ela queria diminuir o nível de sofrimento ali dentro”, explicou.

Em São Paulo, onde está para divulgar seu livro, Ingrid contou também que não pretende voltar à política, seja na Colômbia ou na França. "Não há silêncio que não termine" foi lançado em 15 de setembro. A obra, escrita originalmente em francês, está em processo de tradução para nove idiomas. Em andamento, há também um projeto para transformar o livro em filme.

iG: Por que escrever um livro em que traz à tona um tema tão delicado, que muitos prefeririam deixar no passado?
Ingrid Betancourt: O passado está impregnado em nós. E creio que o ser humano precisa compartilhar o que viveu. Sempre que passamos por algo temos de contar a alguém. Quando cheguei à liberdade, não conseguia contar a ninguém, nem aos meus filhos nem à minha mãe. E chegou um momento em que esse silêncio se tornou muito pesado. Porque eles queriam saber e começaram a perguntar, mas eu não podia contar porque ainda carregava muitas emoções, era muito doloroso. Escrever foi difícil, mas, como estava sozinha, frente ao papel e com disciplina, pude contar.

iG: Quais os momentos de mais tensão, medo e humilhação no cativeiro?
Ingrid: Primeiramente, os momentos de tensão mais fortes foram aqueles em que se preparava uma fuga. Era tudo muito tenso, incerto, estafante. Também eram assim quando íamos mudar de acampamento. Os helicópteros ficam sobrevoando em busca dos guerrilheiros e sempre saíamos correndo, angustiados, sem saber o que aconteceria, onde seria o novo espaço. Mas muito do estresse vinha das confrontações entre nós e os guardas. Estávamos sujeitos a maus-tratos, humilhações, violência física, crueldade e sadismo. E, por fim, as brigas com os outros reféns, que acabavam com qualquer equilíbrio que ainda podia existir em uma situação precária como a de um sequestro. Qualquer olhar ou palavra mal dita já resultava em um ambiente tenso. Estávamos muito vulneráveis.

iG: Em todos esses anos presa, como lidou com sua fé, sua crença em Deus? Em algum momento contestou sua existência?
Ingrid: Talvez quando meu pai morreu, longe de mim. Tenho uma relação com meu pai muito especial, e sempre falávamos que quando ele morresse eu estaria perto dele, pegaria sua mão. E como morreu com dor, mas rodeado de seus outros filhos, pareceu-me monstruoso que Deus tivesse me negado esse momento. Cheguei a pensar: o Deus em que creio é um Deus de amor, e esse é um monstro. Não quero crer em um monstro, não quero crer em um Deus que permite isso. Deixei de acreditar e por um bom tempo não quis nada com Deus. Mas, com o tempo, voltei a crer. Estava em um mundo onde só havia mentiras e não podia me satisfazer com a fé sem explicação. Gastei muitas horas para refletir se, racionalmente, poderia crer em Deus. Se minha razão se sentiria satisfeita com os motivos pelos quais eu mantinha minha crença. E, lendo a Bíblia, passei a me reconectar com Deus de maneira diferente. E a fé foi para mim um motivo de crescimento espiritual, um caminho para encontrar minhas respostas, um guia.

iG – Depois de seis anos na prisão, há planos de voltar para a política, na Colômbia ou na França?
Ingrid: Não.


iG: Quais são os planos futuros então?
Ingrid: São coisas muito básicas como encontrar um lugar para viver, já que ainda vivo entre Nova York e Paris, entre as malas, como uma cigana. Não sei um lugar possível ainda, mas sei onde não quero estar. Busco um lugar onde não fique entediada, onde haja cultura, coisas a aprender. Que não seja muito longe de meus filhos e não haja pressão da mídia. Onde eu viva mais livre.

iG: Está em andamento um roteiro para um filme , da produtora americana Kennedy/Marshall Company, baseado em seu livro. Você presta algum tipo de ajuda ou consultoria à elaboração do roteiro?
Ingrid: Começamos a trabalhar o roteiro, que estará pronto em breve. Logo teremos definidos quem serão os atores e o diretor. Uma pessoa vai escrever o roteiro e me pus à disposição para ajudar no que fosse necessário.

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Capa do livro de Ingrid Betancourt
iG: Seu livro causou polêmica na semana do lançamento pelas críticas à sua assessora Clara Rojas , com quem esteve no cativeiro. Por que as críticas? Como é a relação de vocês hoje?
Ingrid: Não se trata de críticas. Tenho muito respeito pelo sofrimento dos companheiros e, além do mais, quem é quem para julgar? Não podemos julgar nada, ainda mais se tratando de situações extremas como a que estávamos. O que narro não é tanto sobre Clara, mas sobre a minha reação às ações dela. É um pouco diferente, pois quis compartilhar como funciona uma situação de convivência e como a natureza humana se defende e cria situações complexas. A minha relação com Clara ainda é muito complexa. Há muitas coisas positivas, como camaradagem, cumplicidade, carinho, mas há também muitas qualidades negativas. Vivemos uma situação impossível de viver, que é estar presas em um espaço onde nem individualmente poderíamos estar bem. Mas tivemos de compartilhar esse espaço. Não entendemos o que significa o espaço porque o temos. Mas quando o tiram de nós, tiram-nos a possibilidade de respeito por si mesmo e a possibilidade de criar uma barreira de respeito com o outro. Isso leva a uma reação que, obviamente, não é das melhores. Tudo fica muito amargo. Além disso, eu e Clara enfrentamos o sequestro de maneiras opostas. Eu queria escapar o tempo todo, era uma obsessão minha e não pensava nada além de escapar, sair, encontrar um modo de chegar à rua. Mas Clara queria diminuir o nível de sofrimento ali dentro e, portanto, não queria sofrer críticas ou resistências para não sofrer mais. E já que estávamos vinculadas uma a outra, tudo o que dizia a afetava, e tudo o que ela dizia me afetava.

iG: Como encara as críticas dos outros reféns, que a acusam de ter sido arrogante e egoísta?
Ingrid: Com respeito, pois também é uma expressão de dor. Há muitos elementos que fomentaram esse tipo de sentimento. A França, por exemplo, lutou muito para conseguir nossa liberdade. Alguns de meus companheiros eram americanos e os Estados Unidos mal sabiam que eles eram reféns. Para eles isso era muito doloroso. Eu sou metade colombiana e metade francesa, e os dois países estavam mobilizadas por mim. E eles, que eram americanos e trabalhavam para o governo dos EUA na Colômbia, não tinham o apoio público das autoridades. Lembro-me de que quando ouvíamos as notícias pelo rádio e diziam algo sobre ‘os sequestrados, entre os quais está Ingrid Betancourt’ e não mencionavam seus nomes, ou mesmo quando o ex-presidente americano George Bush visitou a Colômbia e não sabia muito sobre os reféns americanos, eles desligavam o rádio e diziam: ‘Você acha que é melhor que nós porque seu nome é falado no rádio?’ou ‘Acha que é mais importante porque foi candidata à presidência?’. Era difícil para mim. Não gostava do que me diziam, soava como agressão, era ofensivo. E eu, provavelmente, reagi de uma maneira que não deve ter sido a correta, mas que era uma reação com dor também. Mas hoje, de todos os meus companheiros, não falo apenas com um, o marine americano Keith Stansell. Nós nos chocávamos o tempo todo, o que acontece com gente que não se entende.

iG: Stansell disse que você teria um caso com Marc Gonsalves, outro americano que esteve preso com vocês.
Ingrid: Creio que Keith está com muitos problemas. Gosto muito de Marc e somos bastante amigos. Mas Marc tem sua vida, sua mulher, vive em seu país, e eu estou aqui. Não tem nada a ver. 

iG: Como ex-política na Colômbia e ex-refém das Farc, como avalia a estratégia do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe contra os guerrilheiros?
Ingrid: Sempre pensei que a negociação era a melhor opção. Mas depois de viver com as Farc fiquei convencida de que para elas não interessa negociar, porque perderam seu objetivo político. Tomar o poder na Colômbia não é viável e já não é o principal objetivo do grupo, que se converteu em um negociador da guerra. Para eles, a guerra é o negócio do qual vivem. Recorrem ao narcotráfico para comprar suas armas, recorrem ao sequestro. Tornaram-se terroristas de um terrorismo ideológico, que é o pior, porque busca se justificar, como na ditadura. Então torturam, matam e se justificam pela ideologia. Não creio que eles queiram negociar, porque um acordo de paz pode mudar a vida do grupo. E na nova vida que teriam não conseguiriam ter o poder que mantêm enquanto guerrilheiros. Por isso, hoje creio que o único modo é confrontá-los militarmente. O Exército colombiano tenta afetar a logística, a comunicação, o sistema de finanças das Farc. Quando isso ocorre, a organização acaba se rompendo. E, sem capacidade de coordenar ações, eles vão acabar caindo.

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