Chegada de ex-guerrilheiro ao poder marca 2009 no Uruguai

Álvaro Mellizo. Montevidéu, 15 dez (EFE).- O Uruguai fechou 2009 com um protagonista indiscutível: José Pepe Mujica, o ex-guerrilheiro tupamaro preso durante mais de uma década sob a ditadura militar que em 2010 assumirá como o presidente mais votado da história republicana do país.

EFE |

A vitória deste camponês de 74 anos nas eleições gerais marcou um agitado ano político, no qual o Uruguai viveu em intensa campanha eleitoral em busca do sucessor do presidente socialista Tabaré Vázquez.

No final, a esquerdista Frente Ampla (FA) renovou seu mandato presidencial e sua maioria parlamentar pelo segundo mandato consecutivo, e governará até 2015 sob a direção de Mujica.

A popularidade e simplicidade do vencedor surtiram mais efeito no eleitorado que o temor a seu passado como guerrilheiro contra Governos democráticos e ditatoriais do país nos anos 60 e 70.

O caminho de Mujica à Presidência, que assumirá no dia 1º de março, começou no final de 2008, quando foi eleito candidato oficial durante o congresso nacional da FA, uma heterogênea coalizão de esquerda na qual convivem desde comunistas até democratas cristãos.

Esta escolha aconteceu apesar da rejeição explícita de Tabaré Vázquez, que preferia como candidato seu ex-ministro da Economia Danilo Astori, um tecnocrata socialista moderado.

Após uma áspera campanha interna, o ex-guerrilheiro ofereceu a Vice-Presidência e a responsabilidade em todos os assuntos econômicos do hipotético Governo a Astori, que aceitou após duras negociações.

Contra a chapa da FA, o direitista Partido Nacional (PN) lançou uma candidatura composta pelo ex-presidente neoliberal Luis Alberto Lacalle (1990-1995) e Jorge Larrañaga.

O histórico Partido Colorado (PC), em baixa após ter governado o Uruguai por 170 anos, buscou seu ressurgimento pelas mãos do advogado Pedro Bordaberry - filho do ex-presidente Juan María Bordaberry - e do ex-jogador de futebol Hugo de León.

O primeiro turno, disputado em 25 de outubro, deixou Mujica às portas da Presidência, com 48% dos votos e a maioria em ambas as câmaras do Parlamento, um bom resultado, mas insuficiente para proclamar-se presidente.

O PN, apesar perder votos, foi a segunda legenda mais votada, com 28% dos votos, enquanto o PC, que duplicou seus resultados em relação às eleições de 2004, chegou a 17%.

O mano a mano final terminou com o triunfo folgado de Mujica, com 53% dos votos, contra Lacalle, que chegou a 43%.

A chegada de Mujica ao poder vai significar a despedida da política, não se sabe se temporária ou definitiva, do presidente Tabaré Vázquez, que concluirá seu mandato com uma popularidade superior a 70% e cujo trabalho à frente do Governo é louvado tanto por seus amigos como por seus inimigos.

De todas as suas medidas, a mais reconhecida foi o Plano Ceibal, que possibilitou a entrega gratuita de um computador portátil a cada estudante de colégio público do país para impulsionar a alfabetização e terminar com a exclusão digital entre as diferentes classes sociais.

A saída de Vázquez abre também uma pequena esperança para solucionar o conflito entre Uruguai e Argentina pela papeleira Botnia e o corte há três anos da principal ponte fronteiriça entre os dois países.

As boas relações de Mujica com o Governo argentino permitem vislumbrar essa solução, enquanto os dois lados esperam que o Tribunal de Haia se pronuncie no começo de 2010 sobre o assunto. EFE amr/mh

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