Chefes do Exército destituídos dão golpe de Estado na Mauritânia

Nuakchott, 6 ago (EFE) - Os militares mauritanos tomaram hoje o poder e detiveram o presidente do país, Sidi Mohamed Ould Cheikh Abdallahi, e o primeiro-ministro, Yahya Ould Ahmed el-Waghf, depois que o Governo anunciou a destituição do Estado-Maior do Exército.

EFE |

Os militares golpistas anunciaram a criação de um "Conselho de Estado" presidido pelo general Mohamed Abdel Aziz, até agora chefe da Guarda Presidencial.

Os eventos foram precipitados pela divulgação de um comunicado da Presidência da República, no qual se anunciava a nomeação do coronel Abderahman Ould Bakr como novo chefe do Estado-Maior do Exército e do coronel Mohammed Ahmed Ould Ismail como responsável pela Guarda Presidencial.

Os dois cargos eram ocupados, respectivamente, pelos generais Mohamed Ould Cheikh Mohamed Ahmed Ghazouani e Mohamed Abdel Aziz, cuja destituição foi rejeitada pelos comandantes do Exército, que declararam "nula e sem efeito jurídico" a mudança realizada por Abdallahi.

No anúncio presidencial se detalhava também que o coronel Ahmed Ould Mohamed el-Kory substituía Ahmed Ould Bekrine como chefe do Estado-Maior da Gendarmaria Nacional e que o coronel Mesgharou Ould Sidi era nomeado novo chefe da Guarda Nacional, em substituição de Felix Negri.

Os militares retiveram na sede do Estado-Maior o presidente e o primeiro-ministro, além de impedir seus colaboradores mais íntimos de chegar a seus escritórios e de colocar a esposa de Abdallahi sob vigilância militar no palácio presidencial.

Unidades militares ocuparam a sede da rádio e da televisão estatal e se desdobraram perante as principais dependências administrativas de Nuakchott.

Além disso, foi anunciado que o "Conselho de Estado" seria presidido pelo general Abdel Aziz e integrado também por Ghazouani, Felix e Bekrine.

O porta-voz da Presidência da República, Abdoulaye Mamadou Ba, qualificou o movimento militar de "golpe de Estado contra a legitimidade constitucional", opinião que foi compartilhada pelo vice-presidente da Aliança Popular Progressista (APP), El Khalil Ould Teyib.

O principal partido da oposição, o Reagrupamento das Forças Democráticas (RFD, em francês), anunciou, no entanto, que o golpe era de se esperar, já que, em sua opinião o presidente da República era o responsável pelo "bloqueio político que havia no país".

As tensões políticas começaram há cerca de três meses, quando um grupo de 39 deputados, a maioria deles pertencentes ao Pacto Nacional para a Democracia e o Progresso (PNDD-ADIL), dirigido pelo próprio Waghf, apresentaram uma moção de censura contra o Governo.

Após estas pressões, Waghf renunciou, mas foi posteriormente confirmado de novo no cargo e encarregado de formar outro Executivo, no qual incluiu exclusivamente membros de partidos da maioria presidencial e representados no Parlamento.

O segundo episódio nesse confronto foi protagonizado por cerca de 50 deputados no final de julho, que pediram ao Governo a realização de uma sessão extraordinária do Parlamento, a qual acabou sendo rejeitada.

E já nesta mesma segunda-feira aconteceu uma retirada em massa de parlamentares que pertenciam ao partido no poder, o PNDD-ADIL, que pediram às legendas nacionais para acompanhá-los para formar um novo movimento nacional "de reforma e de mudança".

A maior parte dos observadores e analistas políticos contatados pela Agência Efe se mostram cautelosos, já que não é a primeira vez que a Mauritânia é palco de um golpe de Estado.

A chegada de Abdallahi ao poder, com sua vitória nas eleições de março de 2007, aconteceu em substituição a uma Junta Militar que governou o país após derrubar em um golpe o presidente Maaouya Ould Taya (1984-2005).

Por enquanto, reina a confusão sobre o paradeiro do presidente e do primeiro-ministro, que continuam retidos, e também sobre o que acontecerá com o Governo e o Parlamento.

No golpe de Estado de agosto de 2005, a cúpula militar que assumiu o poder dissolveu o Governo e o Parlamento e submeteu a plebiscito um projeto de Constituição, o que foi considerado um passo para a democratização do país.

As primeiras reações em nível internacional, da União Africana (UA) e da Comissão Européia (CE), e de países como Espanha e França, se mostraram hoje contra um novo golpe de Estado e expressaram preocupação pela situação na Mauritânia.

Além disso, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a restauração da ordem constitucional no país.

A porta-voz da ONU, Michèle Montas, assegurou que Ban "rejeita profundamente" a ação da cúpula militar mauritana contra um Governo fruto de "eleições democráticas com múltiplos partidos".

Já a Presidência semestral da União Européia (UE), exercida pela França neste semestre, condenou o golpe.

Em comunicado, a Presidência semestral francesa da UE lembra que o dirigente mauritano foi eleito em março de 2007 "após eleições livres e transparentes" e afirma que "as tensões políticas vividas atualmente na Mauritânia devem se resolver no marco institucional resultante da transição democrática".

Nas ruas do país, segundo contou à Efe de Nuakchott a voluntária belga da ONG Intermón Oxfam Violette Gellin, se constata a incerteza, pois se sabia da instabilidade política do país, mas não se esperava uma reação assim por parte dos militares. EFE mo/db

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