O chefe da polícia de Londres, Ian Blair, deixa seu cargo nesta sexta-feira, depois de quatro anos que serão recordados não por seu êxito em reduzir a criminalidade e sim pela morte por engano do eletricista brasileiro Jean-Charles de Menezes, em 22 de julho de 2005.

Nos quatro em que Blair, de 55 anos, dirigiu a Scotland Yard, a taxa de criminalidade caiu 8%, o que fez, apesar de uma onda de mortes violentas de adolescentes nos últimos anos, a confiança dos londrinos em sua polícia aumentar significativamente.

Mas é o caso Jean Charles que marcará de forma definitiva sua ficha profissional, não só pelos erros policiais que levaram à morte de um inocente, como pela ignorância a respeito dos fatos que Ian Blair demonstrou sobre os fatos.

Em um discurso nesta sexta, admitiu novamente que durante 24 horas não soube que seus agentes haviam matado o homem errado e reiterou seu pesar pela morte do eletricista.

Demissão

Pressionado pelas críticas, Blair, que poderia ficar até fevereiro de 2010 no cargo, optou por pedir demissão em outubro passado.

"Pedirei demissão pelo interesse dos londrinos e da Polícia Metropolitana", declarou na ocasião, explicando que não tinha mais o apoio do novo prefeito de Londres, Boris Johnson.


Homenagens a Jean Charles na estação Stockwell de metrô, em Londres / Arquivo

"Durante uma reunião ontem, o novo prefeito deixou claro para mim, de uma forma agradável, mas determinada, que desejava uma mudança à frente da Met", declarou. "Sem o apoio do prefeito, considero que não posso mais prosseguir meu trabalho".

Em seu último dia na Scotland Yard, Blair disse que desfrutou "em 99%" estar à frente de uma organização para a qual trabalhava desde 1974 e lamentou que as pessoas venham a lembrá-lo mais "pelo 1% restante".

Além de Jean Charles, outras críticas pesavam contra ele. Em agosto passado, o oficial muçulmano de maior escalão da Scotland Yard, Tariq Ghaffur, confirmou ter sido discriminado por Blair por racismo.

Além disso, a imprensa local publicou que o chefe da polícia de Londres usou dinheiro público para pagar mais de 26.400 dólares (19.000 euros) a um amigo que o ajudou a melhorar sua imagem quando chegou à chefatura da Scotland Yard em 2005.

Caso Jean Charles

O eletricista brasileiro, então com 27 anos, foi morto em 22 de julho de 2005 por dois agentes que o confundiram com um terrorista.

O fato ocorreu um dia após a polícia frustrar um atentado na capital britânica, no meio da onda terrorista vivida pelos ataques a bomba na rede de transporte de Londres que mataram 52 pessoas duas semanas antes.

Horas depois da morte de Jean Charles na estação de Stockwell, no sul de Londres, Blair disse que o fato estava "diretamente relacionado" às operações antiterroristas do chamdo 21-J (alusão ao dia anterior, 21 de julho), embora um dia depois tenha retificado e admitido que os agentes mataram um inocente, pelo que pediu desculpas públicas.

A família e os amigos de Jean Charles, porém, sempre acusaram o comando policial de mentir em relação à morte do jovem.

Um grupo de pessoas que fazem parte do movimento Justice4Jean (Justiça para Jean) visitaram hoje a Scotland Yard para entregar "um presente de despedida" a Blair e lembrar os erros cometidos mo dia do homicídio e na investigação posterior.

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