Chefe da polícia britânica pode ter sido vítima de escutas telefônicas ilegais

John Yates, comissário-assistente da Polícia Metropolitana de Londres, tem 99% de certeza de que seu telefone tenha sido grampeado

iG São Paulo |

Um chefe sênior da polícia britânica, interrogado no Parlamento sobre um escândalo de grampos telefônicos que levou ao fechamento de um jornal importante, disse na terça-feira acreditar que ele mesmo tenha sido vítima de escutas ilegais.

John Yates, comissário-assistente da Polícia Metropolitana de Londres, disse que é inevitável que alguns policiais sejam corruptos, mas negou terminantemente que tenha recebido pagamentos ilegais de jornais. Pelos métodos que eu sei que foram usados e o impacto que isso tem sobre o telefone da pessoa, sobre sua senha, tenho 99% de certeza de que meu telefone foi grampeado no período de até 2005 e 2006", disse Yates em uma audiência parlamentar sobre o grampeamento de telefones por parte do jornal News of the World , parte do grupo de mídia News Corp. , que pertence ao magnata Rupert Murdoch.

EFE
John Yates disse que é inevitável que alguns policiais sejam corruptos, mas negou ter recebido dinheiro por escutas
O escândalo de grampos incluiu de celebridades, membros da Família Real britânica e políticos a parentes de soldados mortos e vítimas de crimes, lançando uma sombra sobre as operações do News Corp. e levantando perguntas sobre vínculos entre repórteres e policiais. Suspeita-se que alguns deles tenham fornecido números de telefone confidenciais a determinadas pessoas que trabalhavam para alguns jornais.

Yates foi criticado por ter concluído em 2009 que não havia evidências suficientes para reabrir a investigação original da polícia londrina sobre o grampeamento telefônico cometido pelo News of the World , em meio a queixas de que a investigação original não havia se aprofundado o suficiente. No interrogatório, ele disse que não tinha ideia de quem teria interceptado seu telefone e que os registros a esse respeito não existem mais.

Na época, ele comandava um inquérito que investigava alegações de que o Partido Trabalhista britânico, então no governo, estaria recebendo dinheiro em troca de vagas na Câmara dos Lordes, cujos integrantes não são eleitos. O inquérito não foi seguido por acusações criminais.

Indagado se alguma vez recebeu pagamentos de jornalistas, Yates disse: "Essa é uma pergunta estarrecedora. Eu nunca, nunca, jamais recebi qualquer pagamento desse tipo." Ele disse, contudo, que a corrupção na Polícia Metropolitana é inevitável. "Somos uma organização de 50 mil pessoas, e desde sempre dissemos que algumas dessas 50 mil pessoas serão corruptas e aceitarão pagamentos", disse ele.

Yates também disse que nunca foi procurado pelo News International em torno de sua vida particular, nem foi sujeito a qualquer pressão desse tipo por parte do grupo de jornais.

Na segunda-feira, o jornal americano The New York Times publicou na segunda-feira que cinco experientes detetives britânicos descobriram que seus telefones haviam sido grampeados pouco depois de a polícia ter aberto uma investigação sobre o News of the World em 2006.

Andy Hayman, ex-policial que foi o investigador-chefe no inquérito inicial sobre o grampeamento, disse que não fazia ideia se seu próprio telefone foi grampeado. "Eu não sei. Realmente não sei, e, se fui grampeado (...) não tenho nada a esconder. Como costumo dizer, encontrarão minha lista de compras e meus pontos de golfe."

Comissão parlamentar

Também nesta terça-feira, uma comissão parlamentar britânica intimou o magnata Rupert Murdoch a comparecer a uma audiência na próxima semana para prestar esclarecimentos sobre o escândalo de escutas ilegais envolvendo o tabloide News of the World e outras publicações da News International, a subsidiária da News Corporation .

Também foram convocados o filho do magnata, James Murdoch, presidente da News International, e Rebekah Brooks , editora-executiva do grupo. De acordo com o deputado trabalhista Tom Watson, a Comissão de Cultura, Meios de Comunicação e Esporte, quer interrogá-los na próxima terça-feira.

Reuters
Rupert Murdoch é fotografado ao chegar em sua casa em Londres

O News of the World deixou de circular no domingo , após acusações de que funcionários do tabloide estariam envolvidos em interceptação ilegal de telefones de milhares de pessoas, entre elas políticos, atores, jogadores de futebol e outras celebridades.

O caso ganhou repercussão com a denúncia de que um detetive que trabalhava para o jornal teria grampeado o telefone celular de Milly Dowler , uma menina de 13 anos que desapareceu em 2002.

Também teriam sido alvos de grampos os familiares de soldados britânicos mortos no Afeganistão e de vítimas de casos policiais explorados pelo tabloide, além de parentes de vítimas dos atentados de julho de 2005 em Londres.

Gordon Brown

Na segunda-feira, outros jornais do grupo foram envolvidos no escândalo com a denúncia de que o "The Sunday Times" teve acesso a documentos bancários e legais particulares do ex-premiê britânico Gordon Brown , na época em que ele era ministro das finanças.

O jornal The Guardian revelou que um homem, que mais tarde foi preso por fraude por uma acusação diferente, foi contratado pelo The Sunday Times para conseguir acesso a arquivos de Brown junto a seus advogados. 

Em entrevista à BBC, o ex-premiê pediu uma investigação sobre as supostas ligações entre os jornais de Murdoch e o que ele chamou de submundo do crime. Brown acusou a News International de usar métodos "repugnantes" para conseguir reportagens exclusivas.

"Estou chocado. Estou genuinamente chocado em saber que isso aconteceu por causa das ligações com criminosos conhecidos que estavam realizando estas atividades, contratados por investigadores que estavam trabalhando para o Sunday Times", disse Brown.

Brown não se manifestou sobre os supostos abusos cometidos pela mídia enquanto estava no governo, mas novas alegações de que ele foi alvo dos jornais fizeram com que ele viesse a público comentar o assunto. Em entrevista à BBC, Brown contou ter chorado quando descobriu que o jornal "The Sun" tinha informações sigilosas sobre a saúde de seu filho Fraser, que tem fibrose cística, já que ele não queria divulgar a informação.

"(Minha esposa) Sarah e eu ficamos incrivelmente angustiados sobre isso, nós estávamos pensando no futuro dele no longo prazo, estávamos pensando sobre nossa família", ele disse.

Brown afirmou não saber como a informação foi obtida pelo jornal, já que apenas médicos e a família sabiam da doença. O grupo News International disse estar satisfeito com os métodos usados para obter esta informação.

"Se eu, com toda a proteção e todas as defesas e toda a segurança que um ministro das finanças ou primeiro-ministro tem, sou tão vulnerável a táticas inescrupulosas, táticas ilegais, a métodos usados da maneira que descobrimos - o que acontece com o cidadão comum?", indagou Brown.

"E as pessoas - como a família de Milly Dowler (a menina que desapareceu e depois foi encontrada morta) - que estavam na situação mais desesperadora, no momento mais difícil de suas vidas, em uma dor profunda...e aí descobrem que estão completamente indefesos neste momento de imensa dor de pessoas que usam este métodos cruéis?"

*Com Reuters

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