CARACAS - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que a participação é bastante boa no referendo realizado neste domingo no país, em um clima de tranquilidade. Em entrevista após votar, Chávez ressaltou que foi informado de que, ao meio-dia, a participação chegava a 40%.

O presidente venezuelano, que promove a emenda constitucional submetida hoje à consulta popular para poder concorrer a um novo mandato, estimulou os cidadãos a votar, e afirmou que o processo é muito rápido.

Chávez reiterou a necessidade de respeitar o resultado do referendo, "seja qual for", em um breve discurso antes de responder a perguntas dos jornalistas.

Cerca de 17 milhões de venezuelanos foram convocados hoje às urnas para decidir sobre uma emenda que, se for aprovada, permitiria às pessoas com cargos eleitos, entre eles o de presidente, se candidatarem quantas vezes quiserem, sem o limite atual de dois mandatos.

"Até 2030"

Se o "sim" vencer, Chávez poderá trabalhar oficialmente com a possibilidade de permanecer no poder "até 2030", como já declarou - embora ainda tenha de se submeter ao voto popular em 2012. Já para a oposição, só restará uma alternativa: tentar governar melhor Estados e prefeituras e encontrar um líder capaz de desafiar o presidente nas urnas.

Chávez foi eleito pela primeira vez em 1998, iniciando seu governo no ano seguinte. Foi reeleito duas vezes e, pelas regras em vigor, seu mandato atual vai até 2012, sem possibilidade de reeleição.

Mas a modificação de cinco artigos do ordenamento jurídico do país o permitirá voltar a se candidatar quantas vezes quiser, assim como os governadores, prefeitos, vereadores e deputados da Venezuela.

O governo rejeita o termo "reeleição indefinida" e ressalta que a emenda abre apenas a possibilidade de o povo manter os bons governantes no poder, se assim desejar.


Chávez fez campanha popular na Venezuela / AP

Dez anos no poder

Em uma década no poder, Chávez conseguiu - segundo dados do governo - reduzir o índice de pobreza pela metade, baixando-o para 26%. A oposição diz que isso se deveu muito mais ao crescimento da economia, puxado pela alta do petróleo, do que às políticas de governo. Chávez calcou sua popularidade em programas de saúde e educação voltados para a população de baixa renda - e também criticados pela oposição, que os acusa de terem má qualidade e fazerem proselitismo político.

A Venezuela é o maior exportador de petróleo da América Latina e o quarto maior fornecedor dos EUA. A receita do petróleo ajudou a bancar os projetos sociais até agora e, apesar da forte queda da cotação do barril, o governo promete manter os gastos sociais. Chávez, de 54 anos, diz querer continuar na presidência para consolidar sua revolução socialista.

Mas depois de dez anos no poder, até eleitores típicos de Chávez começam a perder sua confiança no presidente. A inflação na casa dos 30% e explosão da criminalidade no país são dois dos fatores que pesam contra o líder.


Chávez completou 10 anos no poder em fevereiro / Reuters

Desafio

Na opinião dos analistas, independentemente do resultado, o maior e principal desafio continua nas mãos da oposição, que terá de apresentar uma candidatura unitária às eleições presidenciais em meio a disputas entre os dois principais partidos emergentes, Primeiro Justiça e Um Novo Tempo.

"Não se trata apenas de ganhar uma eleição onde a opção é Sim ou Não. Se trata de ter um projeto diferente ao de Chávez para apresentar ao país", afirmou o historiador Tinker Salas.

Para o cientista político Daniel Hellinger, o fortalecimento da oposição dependerá fundamentalmente dos resultados das administrações opositoras na prefeitura de Caracas e nos cinco governos estaduais.

"Se governam bem, reduzem a criminalidade, resolvem o problema da coleta de lixo e não ameaçam as missões sociais, sem dúvida se fortalecerão. Caso contrário, perderão em uma disputa contra Chávez ou contra qualquer candidato que o presidente apoiar", afirmou.


Oposição à Chávez protesta contra reeleição / AP

Referendo fracassado

Em 2007, Chávez já havia tentado alterar as regras eleitorais para permitir a reeleição indefinida. A proposta fazia parte de um novo projeto de Constituição, rejeitado por uma estreita margem em outro referendo. Para analistas, o texto foi rejeitado mais por estabelecer que a Venezuela passaria a ser um país socialista e não tanto por permitir a reeleição indefinida.

Esta pode ser a última chance de Chávez mudar a regra eleitoral. Na eleição de dezembro, ele deve perder a maioria absoluta na Assembleia Nacional, o que dificultará mudanças constitucionais.

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* Com AFP, EFE, BBC Brasil e AP

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