Chávez se diz maoísta e anuncia novas refinarias na China

Por Emma Graham-Harrison PEQUIM (Reuters) - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, apresentou nesta terça-feira planos preliminares para a construção de duas novas refinarias na China, um país ávido por energia. A visita pode complicar ainda mais as relações de Caracas com seu principal cliente de combustível, os Estados Unidos.

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O venezuelano anunciou também a intenção de criar uma frota conjunta de navios-tanque e de praticamente dobrar suas exportações de petróleo para o país asiático em 2009. Em maio, os dois países haviam decidido construir uma refinaria para 400 mil barris de petróleo por dia na província de Cantão.

Chávez sinalizou que duas outras podem ser construídas. "Estamos falando em três refinarias, para trazer o nosso petróleo bruto, que é pesado, e processá-lo aqui na China", disse o presidente a jornalistas ainda ao pé do avião. "Também estamos trabalhando em um projeto para construir uma frota petroleira conjunta sino-venezuelana."

Muitas empresas estrangeiras querem construir refinarias na China para abastecer o vasto mercado local, mas o governo reluta em autorizá-las. Chávez tem como trunfo uma enorme quantidade de petróleo para fornecer, o que também ajudaria a Venezuela a depender menos do mercado dos EUA.

Em uma década, Chávez esteve cinco vezes na China, além de fazer elogios frequentes ao regime local -- em contraponto à sua eterna briga com o "império" norte-americano.

"Estamos aqui na terra de Mao Tse-tung, e rendo homenagem a ele. Sou um maoísta", disse Chávez a jornalistas, diante de intrigados policiais chineses na sala VIP do aeroporto. Em seguida, o presidente recomendou uma leitura comunista: "Imperialismo: Etapa Superior do Capitalismo", de V.I. Lênin.

A atual liderança reformista chinesa respeita a figura histórica de Mao, líder revolucionário que impôs o comunismo no país, há quase 60 anos. Mas o foco do regime agora são as políticas capitalistas, deixando de lado as experiências com comunas rurais e a revolução permanente.

A pitoresca retórica de Chávez contrasta, assim, como o mutismo dos diplomatas chineses, que preferem dar ênfase às relações comerciais entre os dois países.

RELAÇÃO COMERCIAL

"As relações sino-venezuelanas não têm um matiz ideológico, não estão voltadas contra terceiros e não afetam as relações da Venezuela com qualquer outro país", disse Jiang Yu, porta-voz da chancelaria, em entrevista coletiva na terça-feira.

Mas a aproximação entre esses dois países nominalmente socialistas deve preocupar os EUA, que compra da Venezuela cerca de 10 por cento do petróleo que consome.

Chávez neste mês ameaçou interromper o fornecimento para os EUA "se houver uma agressão contra a Venezuela", e alertou que isso elevaria o preço do barril para acima de 200 dólares. Nesse caso, porém, Caracas teria de achar outro comprador para exportações equivalentes a quase 200 mil barris por dia. Chávez acusa Washington de tramar sua derrubada e uma invasão do país, o que os EUA negam.

Pequim emprestou neste ano 4 bilhões de dólares a Caracas, e ambos os governos assinaram um acordo de 12 bilhões para produzir e beneficiar o petróleo pesado venezuelano.

Neste ano, a China lança o primeiro satélite da Venezuela, e em maio Chávez anunciou a intenção de comprar aviões militares chineses.

O porta-voz Jiang não quis antecipar acordos a serem assinados nesta visita, mas Chávez disse que há mais de 20 preparados, abrangendo áreas como cooperação alimentar, telecomunicações e energia.

(Reportagem adicional de Ben Blanchard)

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