Esther Borrell. Caracas, 1º fev (EFE).- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, completa amanhã uma década no poder com a aspiração de seguir outros dez anos à frente do país, sobre o qual agora pairam nuvens gigantescas dando conta da crise econômica.

"Virão mais dez anos de período revolucionário", assegura o líder venezuelano, que celebrou em dezembro último o décimo aniversário de sua primeira vitória eleitoral, nas presidenciais de 1998.

Agora, quando se dispõe a festejar a data de sua primeira posse em companhia dos governantes dos países que compõem a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), convidados para uma cúpula extraordinária para a ocasião, Chávez tem dado mais atenção a outro evento que pode abrir caminho para uma nova reeleição.

Em 15 de fevereiro, os venezuelanos voltarão às urnas, menos de três meses depois das eleições regionais, para opinar sobre a proposta de emenda constitucional impulsionada pelo presidente para poder se candidatar a um terceiro mandato de seis anos em dezembro de 2012, ao término de seu atual período à frente do Executivo.

Foi precisamente no final de novembro, uma semana depois das eleições para prefeito e governador, que Chávez ordenou a seus partidários que impulsionassem a via da emenda à Constituição de 1999 para poder se candidatar à Presidência sem a limitação de dois mandatos contemplada agora pela Carta Magna.

Em seus constantes discursos, o chefe de Estado venezuelano não deixou de afirmar que sua opção de permanecer no poder é "para o povo" e para prosseguir no caminho da "revolução" que, segundo ele, os cidadãos querem, como teria ficado provado nas urnas com sua reeleição com grande maioria em dezembro de 2006.

A oposição responde a essas afirmações garantindo que os venezuelanos já disseram "não" à possibilidade de um terceiro mandato no referendo de 2007, quando era proposta uma reforma constitucional que incluía esse projeto, e que acabou derrotada em voto popular.

Na opinião dos oposicionistas, a única coisa que Chávez busca é perpetuar-se no Governo e satisfazer assim suas ânsias de "poder vitalício".

O anúncio de impulsionar a via da emenda de forma tão rápida que surpreendeu analistas, sobretudo depois do pleito regional de novembro, no qual, apesar da vitória do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a oposição consolidou sua presença nos principais estados e núcleos-chave do país.

Alguns viram nessa rapidez a necessidade de realizar o referendo o mais em breve possível, antes que a crise econômica mundial atinja de fato o país.

A bonança petrolífera permitiu o desenvolvimento de inúmeros programas sociais na Venezuela, voltados para os setores mais pobres, base eleitoral do presidente.

Outros analistas, como o diretor do instituto de opinião e pesquisa Datanálisis, Luis Vicente León, consideram que apesar de seu partido ter vencido em números as eleições de novembro, a oposição arrebatou locais "simbólicos" e surgiram dirigentes que podem "fazer sombra" a Chávez.

O presidente "lançou a emenda" agora para evitar que se seguisse falando desses líderes e o debate se voltasse novamente a ele, afirmou o analista à Agência Efe.

Chávez chega a seus dez anos no poder com aprovação de 51%, segundo a última pesquisa divulgada pelo Datanálisis.

Para León, é indiscutível a "alta conexão" do presidente com a maioria dos cidadãos, mas isso não quer dizer que há "confiança".

O analista ressaltou que "Chávez tem dinheiro" para enfrentar os próximos meses, embora a Venezuela tenha fechado o ano passado com uma inflação oficial de 30,9%, a mais alta das Américas. O preço do petróleo também caiu de forma alarmante para um país que é o quinto maior exportador mundial da commodity.

Diretores do banco central da Venezuela disseram recentemente que o Estado "deve revisar" os gastos públicos e evitar novas nacionalizações.

Alguns observadores e analistas já avisaram também que o Governo pode se ver obrigado a criar mais impostos e a desvalorizar a moeda para enfrentar o déficit fiscal, algo que o ministro das Finanças venezuelano, Alí Rodríguez, descarta "por enquanto". EFE eb/fr/rr/jp

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