Chávez muda tom com EUA para evitar isolamento, dizem analistas

Analistas disseram à BBC Brasil que, com a chegada do democrata Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tende a mudar a retórica de confronto com Washington para evitar um possível isolamento. Ao cumprimentar Obama pela vitória que qualificou como um sintoma da mudança de época, Chávez disse que estamos convencidos de que chegou a hora de estabelecer novas relações entre nossos países e com nossa região, sobre as bases dos princípios do respeito à soberania, a igualdade e a cooperação verdadeira.

BBC Brasil |

Na opinião dos analistas, com a mudança de retórica, o governo venezuelano se antecipa a uma possível alteração na política exterior dos Estados Unidos para a América Latina e acompanha a tendência dos demais países da região, que vêem na ascensão de Obama uma possibilidade dessa mudança ocorrer.

"Chávez e os demais países latino-americanos iniciam uma fase de lua-de-mel, levando em conta as características históricas de Obama e o que representa a vitória de um afrodescendente nos Estados Unidos", afirmou o analista político Eduardo Gamarra, professor de Política da Universidade Internacional da Flórida.

Gamarra adverte, porém, que a lua-de-mel poderá durar pouco.

"Gradualmente a situação pode ser tornar tensa. O fato de um afroamericano chegar à Presidência não resolve tudo. Poderá haver mudanças importantes, o governo Obama tentará uma aproximação, mas isso não quer dizer que tentará fazer isso sem condições", afirmou Gamarra.

Mudança de estratégia
Fontes do governo afirmam que, diante da impossibilidade de Obama solucionar de maneira imediata problemas como a crise financeira e o conflito no Oriente Médio, Chávez considera que o democrata poderia tentar recuperar na América Latina o espaço de influência perdido durante os oito anos do governo de George W. Bush.

Para o analista político venezuelano Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-americana da Pomona College, da Califórnia, Chávez já se prepara para isso.

Para Salas, o governo democrata irá abandonar a política de tentativa de isolar a Venezuela dos demais países da região, que durante o governo Bush se orientou no fortalecimento dos governos de direita, como Colômbia, Peru e México, e na distinção de duas esquerdas, a moderada, encabeçada pelo Brasil, e a radical, liderada por Chávez.

Na avaliação do analista, essa política fracassou, e Obama tentará agora trazer para o centro ou a direita os governos esquerdistas da América do Sul.

"A política de Obama seria a de 'direitizar' a esquerda latino-americana", afirma Salas. "Se não houver mudanças na política venezuelana, as possibilidades de êxito desta política de isolamento podem aumentar", acrescentou.

"Imperialismo"
O ex-embaixador da Venezuela em Washington Bernardo Alvarez afirmou que, para repensar uma política para a América Latina, o novo governo americano terá de levar em conta as mudanças que ocorreram na região.

"A diferença é que o continente mudou antes das mudanças nos Estados Unidos. Agora os Estados Unidos terão que se ajustar a essas mudanças, caso contrário, continuarão com uma política fracassada na região", afirmou Alvarez, que foi expulso de Washington pelo governo Bush em represália à expulsão do embaixador americano em Caracas, em setembro.

"Obama deveria começar a pensar que é possível ser um país imperial sem ser imperialista (...) acredito que estamos começando uma nova era, somos otimistas", disse.

A crise entre Venezuela e Estados Unidos se aprofundou em 2002, quando Chávez responsabilizou a administração de George W. Bush de haver apoiado o fracassado golpe de Estado que pretendia derrubá-lo.

Desde então, as relações diplomáticas entre os dois países foram marcadas por tensão e troca de acusações.

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