Chávez declara guerra ao golfe na Venezuela

CARACAS - No Caracas Country Club, o rolar das bolas de golfe e o canto dos pássaros contrasta com o ruído da vida urbana, além dos limites arborizados de um dos mais antigos e refinados clubes da Venezuela.

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Homens carregam equipamentos em campo de golfe, na Venezuela

Mas a paz e tranquilidade dos golfistas sofre uma ameaça sem precedentes, desde que o presidente socialista Hugo Chávez manifestou abertamente sua antipatia por esse esporte "burguês", que se disseminou acompanhando a prosperidade petrolífera do país no século passado.

O discurso chavista, com o subsequente debate nacional sobre o golfe, são sintomáticos da polarização da sociedade venezuelana desde que Chávez assumiu o poder há dez anos, prometendo uma revolução.

Popularíssimo entre os pobres, o presidente acirra ressentimentos entre classes com uma retórica que lembra a do seu mentor cubano Fidel Castro. Reservadamente, os adversários também usam termos pejorativos alusivos à origem de Chávez e seus seguidores.

Sobre o golfe, Chávez declarou recentemente na cidade de Maracay: "Acho que é um esporte burguês, e não há justificativa para ter um campo de golfe no meio de uma cidade onde há tanta necessidade habitacional para o povo."

"Embora haja favelas, você tem 30 hectares para que um pequeno grupo de burgueses e pequenos burgueses possam ir jogar golfe. Eles são preguiçosos demais, usam carrinhos!", zombou.

Mais radical que Fidel

A declaração de Chávez, que é um apaixonado pelos esportes, especialmente o beisebol, salientou e politizou o declínio das instalações de golfe na Venezuela. Vários campos fecharam nos últimos anos, e outros podem ter o mesmo destino se as autoridades decidirem colocar em ação as palavras de Chávez.

A Federação Venezuelana de Golfe diz que o país perdeu sete campos nos últimos anos. A maioria pertencia ao Estado, inclusive à estatal petrolífera PDVSA, que preferiu usar suas verbas e terrenos para outros fins.

Ainda restam 23 campos no país. Muitos foram originalmente criados para os operários do setor petrolífero.

Embora se negue a entrar numa discussão pública com Chávez, Julio Torres, presidente da federação, nota que outros países socialistas, como China e Cuba, vão na direção contrária.

"A China, parceira da Venezuela e um país comunista, tem mais de 300 campos e outros 100 em construção, e cerca de 300 mil golfistas. Cuba está construindo mais campos, para turistas."

O próprio Fidel apareceu numa foto famosa jogando golfe, nos primórdios do seu regime, com o companheiro revolucionário Ernesto Che Guevara.

Torres negou que o golfe seja um esporte elitista na Venezuela, e disse que os clubes estão se esforçando para popularizar a modalidade, abrindo 9 dos 23 campos restantes ao público e mantendo projetos beneficentes para treinar jovens carentes.

No Country Club da capital, funcionários do campo, como o "caddy" Carlos Mejía, de 80 anos, que há meio século carrega tacos por ali, ficam horrorizados com a ameaça que paira sobre o esporte na Venezuela.

Mejía disse que ele e vários colegas não têm outra forma de sobrevivência, e que duvida que o solo macio sob o campo possa mesmo sustentar um prédio habitacional de grandes dimensões.


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