O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, completa hoje 10 anos no poder com as atenções voltadas para o futuro, mais especificamente para o dia 15 de fevereiro. Nesta data, os venezuelanos decidirão nas urnas se aprovam ou não o fim do limite à reeleição aos cargos públicos, entre eles a Presidência.

Na opinião de vários analistas locais, o plebiscito é uma questão de "tudo ou nada" para Chávez, que alega buscar a reeleição como forma de garantir a continuidade de sua chamada revolução bolivariana.

O aniversário de uma década no poder começou marcado por polêmica. Para comemorar a data, Chávez declarou feriado nacional neste dia 2 de fevereiro. No domingo, o governo havia anunciado a possibilidade de sanções administrativas para os empresários que não cumprissem a determinação.

A medida provocou críticas por parte de empresários da oposição, segundo a imprensa local.

A disputa pela aprovação ou não da reeleição no referendo é tensa e tem sido marcada por confrontos entre jovens opositores e simpatizantes de Chávez nas ruas de Caracas.

Se a tendência dos pleitos anteriores se repetir, a polarização nos últimos dias antes do referendo tende a favorecer os dois grupos, que se veem desafiados a mostrar sua vontade também nas urnas.

A última pesquisa de intenção de voto realizada pela empresa Datanálisis, divulgada na última semana, mostra uma pequena vantagem do governo.

De acordo com a Datanálisis, 51,5% dos venezuelanos apoiam o fim do limite a reeleição, enquanto 48,1% rejeitam a proposta. O estudo tem margem de erro de 2,72%.

"É o tudo ou nada. Se o chavismo perde, é o começo do fim", afirma Edgardo Lander.

"Não existe nenhum líder da oposição que tenha o apoio que Chávez tem entre a população e, ao mesmo tempo, o consenso para a eleição de um único candidato entre esse grupo poderia ser mais difícil", afirmou.

Para o opositor Teodoro Petkoff não há, por enquanto, alternativas no campo opositor capazes de vencer uma disputa com Chávez, mas, a seu ver, ainda há tempo.

"Agora não há alternativas, mas ainda há quatro anos para ele e para a oposição. Os partidos (opositores) são precários, mas estão aí", afirmou.

O analista Javier Biardeau qualifica como um "desafio histórico" a tarefa da oposição.

"A oposição terá quatro anos para cumprir um desafio histórico, que é convencer a base eleitoral do chavismo de um projeto que supere a revolução bolivariana", afirmou.

O debate sobre os dois projetos de país está novamente colocado sobre a balança.

Petkoff diz esperar uma mudança democrática com a vitória de um governo de direita nas eleições presidenciais.

"Se surgir um governo de direita, que é o mais provável que surja depois de Chávez, uma direita moderna e democrática, capaz de recompor as instituições da política, já basta", afirmou.

A centralização do poder nas mãos do presidente da República levou o chavismo a um cenário de debilidade, na avaliação de analistas ouvidos pela BBC Brasil, já que a base governista e o próprio Chávez consideram que não existe substituto capaz de dar continuidade ao projeto de construção do socialismo bolivariano.

"Se depois de 14 anos da chegada de Chávez ao poder (período após a conclusão do segundo mandato, em 2013), não houver uma liderança substituta e o processo revolucionário continuar dependendo dele, será sinal de uma extraordinária debilidade em relação à organização e transformação da sociedade", afirmou o sociólogo Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela (UCV).

"Obviamente, o que aconteceu na Venezuela não teria ocorrido sem ele, mas, ao mesmo tempo, Chávez é o limite do processo venezuelano, da democratização, de tudo", acrescentou.

Na opinião do historiador venezuelano Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-Americana do Pomona College, na Califórnia, essa debilidade pode significar inclusive, o fim do chavismo.

"Processos políticos que não conseguem desenvolver uma liderança diversificada e que não conseguem institucionalizar o processo de mudanças se desgastam e podem ser facilmente suplantados", afirma.

O presidente venezuelano tem mostrado nos últimos anos que é ele quem determina desde as grandes decisões macroeconômicas e geopolíticas até questões de menor importância na vida pública.

Apesar de ser o principal defensor da participação popular na tomada de decisões, "a última palavra sempre é de Chávez", afirma o historiador norte-americano Steve Ellner, professor da Universidade dos Andes, no Estado Mérida, na Venezuela.

Para o lançamento da proposta de emenda constitucional, por exemplo, primeiramente Chávez anunciou que "autorizava o partido" a ativar os mecanismos para a coleta de assinaturas em apoio à medida. Logo depois, decidiu que a discussão deveria ocorrer no Congresso e acabou determinando ele mesmo a data do referendo para 15 de fevereiro.

Esta "onipotência", na opinião do general Alberto Müller Rojas, vice-presidente do partido do presidente, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), transformou Chávez em uma "instituição" na Venezuela.

"Aqui não há instituições, elas se desmantelaram, ninguém as derrubou. Os sindicatos não existem, os partidos políticos não existem, a Igreja não existe, não há instituições que agreguem e, quando isto acontece, surge um líder e ele é a instituição", afirmou Müller Rojas.

Para o sociólogo Edgardo Lander, no entanto, a situação é mais complexa. Ele afirma que o estilo de liderança do presidente impossibilita o surgimento de um líder alternativo a ele.

"Há um ausência de crítica e autocrítica. Há uma espécie de autocensura dos que rodeiam o presidente porque querem se manter ali (no governo). Então, o presidente está rodeado de gente que nunca lhe diz nada", afirma Lander.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.