Centro ensina haitianas a cuidar de filhos não desejados

Jesús Sanchis. Porto Príncipe, 26 (EFE).- A cidade de Porto Príncipe, uma caótica capital que causa impacto por causa de sua pobreza e insalubridade, esconde também surpresas agradáveis, como um centro onde dezenas de jovens mães haitianas aprendem a cada ano a cuidar de seus bebês, que em muitos casos são filhos não desejados.

EFE |

No meio do caos de Cité Soleil, um dos bairros mais degradados e violentos da capital haitiana, o centro administrado pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paula surge como um refúgio no meio de ruas invadidas pelo lixo e encharcadas por águas poluídas.

Centenas de mães aparecem a cada ano nas portas do centro, em uma última tentativa de salvar seus bebês, em muitos casos após não ter dado atenção a eles, às vezes de forma quase inconsciente e involuntária.

Trata-se, segundo explicou à Agência Efe a irmã María Cristina Dueñas, de mulheres muito jovens, inclusive de 15 e 16 anos, que foram estupradas ou que já têm várias "bocas para alimentar" e que estão assoberbadas de problemas.

"Então as crianças começam a perder peso e a manifestar sinais de desnutrição", explicou.

É aplicado um programa intensivo de nutrição nos bebês, que inclui quatro refeições ao dia até que recuperam seu peso, mas também as mães se submetem a um plano de formação orientado a aprender a se relacionar com seus filhos.

"Temos todo um programa de formação para que a mãe aprenda a querer bem à criança, aprenda a dar-lhe afeto e compreenda tudo o que representa um filho", relatou a religiosa mexicana, que trabalha neste centro desde outubro do ano passado.

Quando o bebê está no centro, que tem uma presença constante de pelo menos 80 deles durante todo o ano, as mães devem assumir o compromisso de ir lá todos os dias durante seis meses, tempo que dura o processo.

"A mãe chega com seu bebê e a primeira coisa que faz é dar comida a ele. Depois troca sua roupa, dá banho e o deixa descansando por um bom tempo", disse Dueñas, ressaltando a importância do contato entre a mãe e o filho para reforçar a relação afetiva.

"Trata-se de conseguir que a mãe aceite a criança, que lhe dê de comer, fale com ela e a acaricie", explicou.

Mães e filhos permanecem na instituição pela manhã e vão embora ao meio-dia. "Durante o tempo que estão conosco falamos tudo o que uma mãe deve ser para seu filho e pouco a pouco ela vão se conscientizando", acrescentou.

A formação inclui conversas e conferências semanais, mas também exemplos práticos.

"Às vezes pegamos uma boneca e fingimos que é uma criança. Então se maltrata a boneca e a mãe começa a sofrer. Nesse momento é dito para ela: veja bem, isto é uma boneca; seu filho sente muito mais", explicou.

"A reação das mães é muito positiva, já que conversam entre elas, se apóiam e, no final, o testemunho de todos os bebês que se recuperam é o que faz com que continuem vindo", acrescentou a religiosa, que trabalha junto com três irmãs haitianas, uma brasileira, uma espanhola, uma polonesa e uma italiana.

Durante o processo de recuperação de seus bebês, as mães trabalham na instituição, onde se dedicam à confecção ou à elaboração de peças de artesanato, além de cartões de Natal feitos manualmente.

A primeira vice-presidente do Governo espanhol, María Teresa Fernández de la Vega, visitou no ano passado a instituição e comprou 12 mil desses cartões para seu departamento enviar nas festividades de final de ano.

Além de ser um centro de recuperação de bebês, a instituição é também um colégio frequentado por 1,3 mil crianças, que fazem as primeiras séries, assim como um jardim de infância para outras 430.

As irmãs também têm a intenção de disponibilizar o ensino secundário, mas isto ainda não foi possível. Enquanto isso, a congregação custeia os estudos secundários de outros 200 menores.

Em frente ao centro, construído sobre um antigo lixão, fica a casa das irmãs, que estão há 30 anos em Cité Soleil e viveram a dura história recente do país.

Nessa história houve momentos muito difíceis, como os vividos após a derrocada do presidente Jean Bertrand Aristide, em 2004, quando Cité Soleil era o reduto de poderosos grupos criminosos.

As coisas mudaram agora, os bandos já não estão tão presentes, mas a pobreza no local continua. EFE jsm/ma

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