Católicos parecem tirar mais proveito do Acordo da Sexta-Feira Santa

Javier Aja Dublin, 9 abr (EFE).- O Acordo da Sexta-Feira Santa não deixou vencedores nem vencidos, mas dez anos após sua assinatura é a comunidade católica quem parece ter aproveitado melhor as oportunidades oferecidas pelo processo de paz.

EFE |

Em pouco mais de uma década desapareceu a discriminação socioeconômica sofrida por essa comunidade nas mãos da classe governante, majoritariamente protestante, desde a partilha da ilha no início da década de 1920.

Essas diferenças, mais que o desejo da reunificação, forçaram os católicos a tomar as ruas no final dos anos de 1960 para denunciar sua condição de cidadãos de segunda classe em grandes passeatas, que só serviram para acentuar o ressentimento dos unionistas.

Embora a incipiente violência tenha obrigado o Governo de Belfast a adotar medidas de emergência para melhorar as condições de vida dos católicos, o Exército Republicano Irlandês (IRA) já tinha se propagado como defensor da comunidade e plantava a semente de um longo conflito com as forças de segurança e paramilitares protestantes.

Depois de cerca de três mil mortos, e com a segurança de que os objetivos históricos de ambas as comunidades não seriam alcançados por meio das armas, os partidos norte-irlandeses aceitaram em 1998 o pacto de paz que ficaria conhecido como Acordo da Sexta-Feira Santa.

Dez anos depois, por exemplo, a porcentagem de católicos que têm título universitário é maior que o de protestantes.

Um estudo recente elaborado pela Queen's University de Belfast indica que 31% dos católicos têm algum tipo de preparação acadêmica ou profissional, contra 25% dos protestantes, enquanto a porcentagem para ambas as comunidades em 1997 era de 17%.

Segundo um dos autores do estudo, Richard English, os católicos também estão reduzindo o nível de pobreza mais rapidamente que seus adversários históricos, o que demonstra que os benefícios do processo de paz "fluem" para os católicos com mais facilidade.

"Em termos gerais, os grupos protestantes menos privilegiados (a classe baixa) progrediram menos que seus equivalentes da outra comunidade nas áreas de emprego e educação", explica o analista.

"Não se pode falar em ganhadores ou perdedores", acrescenta English, quem reconhece, no entanto, que alguns se adaptaram melhor que outros à "nova e em transformação" Irlanda do Norte, sobretudo a classe média católica.

Dessa forma, em dez anos, a taxa de desemprego entre os católicos foi reduzida à metade, passando de 12% para 6%, número ainda superior ao apresentado pelos protestantes no quesito.

No entanto, durante esse período, o número de católicos no mercado de trabalho norte-irlandês aumentou 3%, enquanto o de protestantes caiu 5%.

Os números, ainda de acordo com o estudo, não variam significativamente ano a ano, mas tais mudanças aplicadas a toda uma geração são "enormes".

"O que estamos vendo é um grande mudança na vida da Irlanda do Norte. As oportunidades atuais em educação e emprego para a comunidade católica eram quase impensáveis há 30 anos", destaca English.

Não é de se estranhar que uma parte do unionismo tenha assumido uma certa sensação de derrota. Além disso, um ditado na província é o de que os políticos católicos são mais hábeis que os protestantes na hora de "vender" uma derrota como uma vitória a seus seguidores.

Mas com a erradicação das diferenças socioeconômicas entre ambas as comunidades - a raiz do conflito -, os unionistas talvez tenham acalmado o apetite dos nacionalistas pela reunificação da ilha e transformado esse sonho em um mero parágrafo do programa eleitoral de partidos católicos. EFE ja/fr

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