Castigadas pela guerra, viúvas protestam contra ajuda do Governo no Nepal

Manesh Shrestha. Katmandu, 11 ago (EFE).- As viúvas do Nepal, muitas das quais perderam seus maridos durante a guerra civil no país, protestaram contra o Governo por tentar comprar seus sentimentos com uma ajuda destinada apenas às que se casarem de novo e pediram proteção estatal para todas.

EFE |

Centenas de viúvas saíram às ruas de Katmandu, na segunda-feira, para protestar contra a medida, que oferece 50 mil rúpias (US$ 650) às que se casarem de novo, mas que deixa o resto sem ajudas financeiras.

"Os sentimentos das mulheres viúvas não devem ser comprados com dinheiro" ou "Segurança garantida para os filhos" eram algumas das frases que podiam ser lidas nos cartazes no protesto.

No Nepal, regido pelas normas conservadoras hindus, as viúvas que se casam novamente são estigmatizadas e seus novos maridos não costumam aceitar os filhos que estas mulheres tiveram no casamento anterior.

"Como posso me casar de novo? O que acontecerá com meus filhos?", lamentou à Agência Efe a manifestante Sabita Chaudhary, de 28 anos e mãe de um menino de 13 anos e uma menina de 9.

O estigma social das viúvas se une ao trauma deixado pela guerra civil entre a antiga guerrilha maoísta e o Exército nepalês, entre 1996 e 2006, durante a qual mais de mil pessoas desapareceram.

A própria Sabita explicou à Efe que as tropas nepalesas invadiram há seis anos, no auge da guerra, o estúdio fotográfico de seu marido, no sudeste do país, e o prenderam por suposta colaboração com os rebeldes. A mulher nunca mais voltou a ter notícias dele.

A viúva denunciou, além disso, que, após a detenção, ela foi torturada durante uma semana em um quartel militar.

"Me feriram com uma lâmina nas coxas e colocavam sal em cima do machucado, para que eu desse detalhes sobre os maoístas", revelou Sabita, mas segundo ela, eles não faziam parte da guerrilha.

O caso de Basanta Joshi, viúva de um policial que foi assassinado pela guerrilha, é diferente, mas a mulher também se queixa da medida governamental.

"Sinto que fui vendida", disse Basanta à Efe, viúva de 40 anos e mãe de quatro meninas.

À indignação das viúvas se somou a reação dos grupos de defesa dos direitos da mulher.

"Isto significa que uma mulher só está completa quando se casa", disse à Efe a presidente da organização Direitos Humanos das Mulheres (WHR, na sigla em inglês), Lily Thapa.

Segundo a ativista, que pertence ao grupo que organizou o protesto, a medida significa que uma mulher só pode estar protegida em companhia de um homem.

A WHR afirma que a medida vai contra o espírito da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, na sigla em inglês), ligada às Nações Unidas, e quer que o Governo do Nepal a elimine.

"Em vez disso, é preciso dar emprego às viúvas e assegurar um salário", afirmou Lily, que acrescentou que as medidas de apoio às viúvas deveriam estar ligadas ao ensino algum ofício a estas mulheres.

Segundo as ativistas, a ajuda é algo parecido a um dote, mas oferecida pelo Estado.

"Como se pôde chegar a esta decisão, se o dote é ilegal?", se perguntou a presidente da WHR.

As viúvas maiores de 60 anos recebem por lei uma pensão mensal de apenas de 500 rúpias (US$ 7), mas a organização WHR quer que todas as mulheres desfrutem de ajudas desde o momento em que perdem seus maridos, sem levar em conta a idade.

Não existem dados oficiais sobre o número de viúvas no Nepal, mas a WHR contatou um total de 44 mil mulheres que perderam seus maridos, em 225 povoados.

De acordo com um estudo realizado por esta organização, 67% das viúvas no Nepal, um dos países mais pobres do mundo, com uma renda per capita de US$ 473 dólares, têm entre 20 e 35 anos, uma cicatriz, entre outros aspectos, da guerra civil. EFE ms-sp/pd

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