Caso Fritzl: Áustria teme por sua imagem internacional

Terra das Crianças Perdidas, Terra das Masmorras, Terra do Horror - os austríacos estão cada vez mais preocupados com a imagem do seu país no exterior depois do escândalo de Josef Fritzl, o homem que prendeu e abusou de sua própria filha por 24 anos no porão de casa. Um colunista do jornal austríaco Der Standard resume a sensação popular ao citar o comentário de um taxista alemão sobre a Áustria: lindas montanhas, mas porões tão feios.

BBC Brasil |

Com razão, os austríacos não gostam do que o mundo está falando sobre eles - afinal de contas, não se pode dizer que eles têm o monopólio dos crimes hediondos. O governo já disse que não vai aceitar que o país passe essa imagem.

Na quarta-feira, o chanceler austríaco, Alfred Gusenbauer, anunciou que o governo vai contratar uma consultoria para lançar uma campanha internacional. Ele prometeu usar "todos os meios técnicos e profissionais disponíveis para corrigir" a imagem da Áustria.

O governo tem pressa para começar a campanha antes da Eurocopa 2008, que será sediada pela Áustria e pela Suíça.

Outros casos
Especialistas alertam contra campanhas superficiais demais, com mensagens simples do tipo "Áustria é um lugar muito legal" ou "Austríacos são pessoas legais". Esse tipo de campanha, segundo eles, poderia atrair ainda mais atenção para os horrores de Amstetten (a cidade onde Fritzl cometeu seu crime).

Simon Anholt, especialista em marketing de países, diz que o governo está se preocupando à toa e que o incidente não deve mudar a percepção que as pessoas têm da Áustria de um lugar "calmo, tranqüilo e mais ou menos sem crime".

Anholt, que faz as pesquisas Nation Brands Index sobre a percepção que estrangeiros têm dos países, cita o exemplo de outros países europeus que sofreram com manchetes negativas na imprensa mundial.

Em 2004, o polêmico cineasta holandês Theo Van Gogh foi assassinado após o lançamento de seu filme sobre crimes contra mulheres muçulmanas. O crime levou a uma série de ofensas contra muçulmanos na Holanda.

Um ano antes, a política sueca Anna Lindh foi esfaqueada até a morte em Estocolmo. O crime aconteceu após uma série de ataques esparsos pelo país, levando as pessoas a se perguntarem se algo estranho estava acontecendo na tradicionalmente pacífica Suécia.

Anholt disse que mesmo depois dos incidentes, as percepções que as pessoas têm de Amsterdã e Estocolmo ainda são de lugares pacíficos.

Pedofilia e charges
A imagem da Bélgica foi manchada após as revelações nos anos 90 sobre o pedófilo Marc Dutroux. Segundo Anholt, o país conseguiu superar a crise de imagem.

Segundo o especialista, a opinião das pessoas muda apenas quando o assunto em questão se torna pessoal.

"A imagem da Dinamarca decaiu no mundo muçulmano depois dos protestos contra as charges de Maomé, porque os muçulmanos encararam isso como um ataque pessoal."
O diretor da Sociedade Austríaca de Marketing, Wolfgang Bachmayer, concorda que o caso de Josef Fritzl não terá um efeito prolongado na imagem internacional da Áustria.

"Ao contrário do caso Dutroux, não existe envolvimento com política ou estruturas públicas - isso tudo aconteceu apenas pelas ações de uma pessoa", disse Bachmayer à BBC.

Ele disse que uma campanha para lembrar as pessoas de que a "Áustria é um lugar legal e seu povo são pessoas legais" seria um desperdício de dinheiro.

Sombra do nazismo
Ele lembra que a Áustria já teve de lidar várias vezes com problemas de imagem no passado.

Entre eles estava a candidatura à presidência de Kurt Waldheim, em 1985. Durante a campanha, descobriu-se que ele foi oficial de inteligência da Wehrmacht, a força de segurança nazista das décadas de 30 e 40.

Em 2000, o governo austríaco foi condenado internacionalmente pelo crescimento do Partido da Liberdade, de extrema direita. O líder do partido, Joerg Haider, havia elogiado no passado alguns aspectos do nazismo.

"Esses incidentes não mudaram a percepção das pessoas a respeito dos cidadãos do país como pessoas amigáveis e charmosas", disse Bachmayer.

Para o especialista britânico em marketing Wally Olins, que também trabalha com a imagem de países, o escândalo atual vai se enfraquecer em breve, mas ele serviu para que os austríacos se lembrem de alguns assuntos "sombrios".

Colunistas internacionais não deixaram de lembrar que Adolf Hitler nasceu na Áustria e que muitos austríacos aceitaram com bons olhos a ocupação nazista dos anos 30 e 40.

"A Áustria, como muitos países, precisa fazer algo a respeito de sua imagem. Esse incidente é um dos muitos temas com os quais o país precisa lidar", disse Olins.

"Há sempre o assunto mal-resolvido da posição do país durante o período nazista, e de Haider e dos neonazistas. Eles não fizeram as pazes com seu passado. Há uma sensação generalizada de que com a Áustria existe algo perverso e escuro no sótão."
Ele disse que em vez de contratar uma consultoria para lidar com a nova crise no curto prazo, o país precisa lidar com todos os temas negativos como parte de um esforço de longo prazo estratégico. Um esforço que poderia durar de cinco a dez anos.

Para ele, o governo precisa descobrir como os austríacos se enxergam e o que os seus vizinhos pensam deles, para poder entender que rumo o país quer tomar.

"Não é um mundo de Noviça Rebelde que eles querem retratar", diz.

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