Caso Eluana faz reviver tensão religiosa, 80 anos após a concordata com o Vaticano

A Itália comemora, nesta semana, em um clima tenso, a concordata firmada há 80 anos com o Vaticano, devido à ingerência da Igreja em questões éticas, sobretudo, na polêmica sobre o direito a uma morte digna deflagrada pelo caso de Eluana Englaro.

AFP |

Embora os Tratados de Latrão, assinados em 11 de fevereiro de 1929 pelo cardeal Pietro Gasparri e por Benito Mussolini, tenham encerrado um longo conflito de poder entre o Papa e a autoridade civil italiana, muitas feridas continuam abertas.

"Estamos vivendo um clima de guerra religiosa", admitiu, em editoral publicado recentemente, o influente jornal econômico "Il Sole 24 Ore", ao analisar o confronto provocado pelo caso Eluana, cuja morte na segunda-feira, após 17 anos em coma, gerou um debate nacional sobre a eutanásia e até uma crise de governo.

Três dias depois de sua morte, após a suspensão da alimentação artificial, autorizada pela máxima autoridade judicial do país, o clima está menos virulento, mas não tranquilo.

A maior organização da esquerda do país, o Partido Democrático, que conta com católicos, ex-comunistas e laicos em suas fileiras, convocou uma manifestação na sexta-feira para denunciar a "instrumentalização cínica" do caso Eluana e "o atentado contra a Constituição", por parte do governo conservador de Silvio Berlusconi.

Por pressão do Vaticano e da Igreja italiana, que chegou a classificar de "homicídio" a interrupção da alimentação artificial da jovem, Berlusconi, que até esse momento não havia-se pronunciado sobre o caso, decidiu "salvar Eluana" por meio de um decreto urgente, rejeitado por "inconstitucional" pelo chefe de Estado, Giorgio Napolitano.

Apesar da rejeição de Napolitano, o primeiro-ministro convocou o Parlamento para que promulgasse a lei urgente, desafiando, ao mesmo tempo, a máxima autoridade judicial que havia autorizado a "desconexão" e até os princípios da mesma Constituição.

"Com um único disparo, golpeava vários adversários ao mesmo tempo e conquistava a Igreja", comentou há pouco tempo o jornal "Il Manifesto".

Acusado de "racismo" pela mesma Igreja católica, por causa de sua dura política contra a imigração, Berlusconi conseguiu, astutamente, aliar-se com o Vaticano, comprometido com uma verdadeira cruzada moral na Itália, em especial nos temas como aborto, contracepção, direito a uma morte digna, eutanásia, utilização de embriões para a pesquisa científica e as uniões livres.

"A Concordata de 1929, revisada em 1984, não goza de boa saúde. O laicismo do Estado não está reconhecido", disse, também em editorial, o jornal "La Repubblica".

"A última década registrou o assalto da Igreja ao Parlamento italiano, algo sem precedentes", declarou o vaticanista Marco Politi, em um livro que analisa a chamada "Igreja que diz não a tudo".

Depois de ter tentado, por todos os meios, eliminar a lei que legalizou o divórcio e o aborto nos anos 1970, a Igreja italiana continua batalhando a favor de temas que considera "inegociáveis", como "a vida desde sua concepção até sua morte natural", exigindo dos parlamentares católicos italianos que "cumpram suas disposições, e não as do eleitorado", acrescentou o especialista em Vaticano.

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