Caso de tráfico de crianças expõe vulnerabilidade da infância no Haiti

Javier Otazu. Porto Príncipe, 1 fev (EFE).- A prisão de dez americanos que pretendiam tirar 33 crianças supostamente órfãs do Haiti evidenciou a precariedade na qual vivem muitas delas nas ruas ou em albergues após o terremoto que devastou boa parte do país no último dia 12.

EFE |

Segundo fontes do Instituto do Bem-Estar Social, que assumiu os cuidados sobre os menores e interrogou os maiores de 7 anos - no grupo havia crianças de entre 2 meses de idade e 12 anos -, muitos deles não eram órfãos.

Estas crianças confirmaram que têm pais e deram inclusive seus endereços e telefones, o que desmentiria a versão da ONG New Life Children's Refuge, uma entidade de confissão batista baseada no estado americano de Idaho.

Os dez americanos detidos serão apresentados à Justiça ainda hoje.

O ocorrido demonstra a falta de amparo às crianças órfãs ou que vivem nas ruas do Haiti. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estimava que, mesmo antes do terremoto, 16% das crianças haitianas tinha perdido um de seus pais ou os dois.

Só na capital, Porto Príncipe, entre duas mil e três mil crianças viviam nas ruas, nem sempre órfãs, mas às vezes procedentes de famílias desestruturadas.

"Estas crianças nos preocupam, pois são as mais vulneráveis à exploração e ao tráfico", declarou Françoise Vanni, do Unicef no Haiti, à Agência Efe.

Além dos meninos de rua, estão os que vivem em albergues, que segundo o Unicef já eram 50 mil espalhados por 600 centros antes do terremoto.

As agências da ONU e ONGs dão como certo que os números de órfãos e crianças sem-teto aumentaram após o terremoto, mas não existe nenhum cálculo a respeito, mesmo que aproximado.

O Unicef garante privilegiar qualquer outra solução antes da adoção internacional, como a reunião com parte da família estendida ou inclusive com a comunidade.

Fontes da Direção Geral de Polícia disseram à Efe que são conscientes de que o tráfico de crianças é um grave problema no Haiti.

Segundo estas fontes, as crianças tiradas ilegalmente do Haiti podem ir, no melhor dos casos, para uma família que falsifica documentos. Nos piores, pode cair em uma rede de exploração sexual ou inclusive de tráfico de órgãos.

Em colaboração com o Unicef, as rádios haitianas emitem com certa frequência avisos nos quais se alerta sobre o tráfico de crianças e a exploração infantil, em uma campanha de conscientização que também é feita em hospitais e nas fronteiras do país.

Acredita-se que, nos dias posteriores ao terremoto, muitas crianças foram tiradas dos hospitais por pessoas sem vínculos familiares aproveitando a ausência de parentes diretos e o caos vivido pelo país.

As ruas de Porto Príncipe estão cheias de menores que, como seus pais, estão sem rumo. Não podem estudar porque 75% das escolas da cidade ficaram total ou parcialmente danificadas pelo terremoto.

O Unicef e o Governo haitiano tinham anunciado que as aulas seriam retomadas hoje onde fosse possível, mas o caos administrativo é tão grande que ninguém deu um aviso claro até o momento e tudo parece indicar que a volta às aulas foi postergada para um momento mais propício. EFE fjo/bba

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