Carro-bomba em NY chama atenção para o Paquistão

Se for comprovada ligação de grupos extremistas do Paquistão a autor de atentado, relação com os EUA deve mudar

Reuters |

Se houver vínculos entre o Taleban paquistanês e a tentativa fracassada de detonar um carro-bomba na Times Square, em Nova York, isso poderá submeter o Paquistão a pressões renovadas dos EUA para abrir novas e arriscadas frentes de combate a militantes islâmicos.

AP
Imagem de vídeo divulgado pelo Taleban para reivindicar a tentativa de atentado
O Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), ou Movimento Taleban do Paquistão, reivindicou a responsabilidade pelo atentado fracassado , e seu líder, Hakimullah Mehsud, apareceu em vídeos na internet no domingo ameaçando lançar ataques suicidas em grandes cidades dos EUA.

Um cidadão norte-americano nascido no Paquistão, Faisal Shahzad, é acusado de ter conduzido à Times Square o carro-bomba que não explodiu. Ele irá aparecer diante de um tribunal em Manhattan ainda nesta terça-feira, disseram autoridades.

Dúvidas podem ser expressas novamente sobre a determinação do Paquistão em enfrentar militantes, no momento em que o país enfrenta outros problemas, desde a economia fraca até cortes no fornecimento elétrico que vêm prejudicando a popularidade do governo.

"É possível que o Paquistão tenha que fazer mais sacrifícios e fazer uso muito mais intensivo e sistemático da força, como em operações de busca e destruição", disse Rifaat Hussain, diretor do Departamento de Estudos de Defesa e Estratégicos da Universidade Quaid-i-Azem, em Islamabad.

País fortemente dependente de ajuda externa, o Paquistão diz que não tem condições de ampliar as ofensivas de segurança em áreas como o Waziristão do Norte, que abriga uma rede complexa de grupos militantes que, se forem antagonizados, podem aprofundar as hostilidades contra o Estado.

"A boa-vontade internacional vai azedar se não formos vistos como fazendo mais contra os grupos do Waziristão do Norte que ainda não foram afetados e contra grupos do Punjab que ainda não foram afetados", disse o escritor paquistanês Ahmed Rashid, especialista no Taleban.

Lembrança do 11/09

Alguns dos grupos militantes mais perigosos do Paquistão têm seus redutos na província de Punjab, no coração do país.

Entre eles estão o Lashkar-e-Taiba (LeT), ao qual é atribuído o ataque de 2008 contra Mumbai, a capital comercial da Índia, que deixou 166 mortos. O LeT também é acusado de tramar ataques no Ocidente.

Apoiado no passado pela agência de Inteligência Inter-Serviços (ISI) do Paquistão, para combater a Índia na Caxemira, estima-se que o grupo tenha entre 2.000 e 3.000 combatentes e outros 20 mil seguidores, muitos deles treinados para combater e que poderiam ser mobilizados no caso de uma ação repressiva das forças do governo.

Um ataque em grande escala poderia levar o LeT e outros grupos do Punjab a formar uma aliança com o Taleban do Paquistão, grupo apoiado pela Al-Qaeda e que continua a promover ataques suicidas, apesar das ofensivas do exército que, segundo as forças do governo, mataram centenas de combatentes.

Esses riscos podem ser deixados de lado pelos Estados Unidos, agora que o atentado fracassado na Times Square soou novos alarmes em um país ainda assombrado pelos ataques do 11 de Setembro de 2001 lançados pela Al-Qaeda.

Se os Estados Unidos pressionarem demais o Paquistão, isso pode prejudicar as relações entre os dois países, que vinham melhorando nos últimos meses.

"Se Hakimullah é responsável pelo que aconteceu na Times Square e está lançando uma campanha contra cidadãos americanos, esse é o tipo de coisa que abala todo mundo e gera a vontade política de realmente exercer pressão sobre o governo paquistanês", disse Brian Fishman, pesquisador de contraterrorismo junto à Fundação New America.

"Se Hakimullah estiver de alguma maneira orientando ataques contra território americano, isso muda o tipo de influência que os EUA vão querer exercer contra o Paquistão. Isso eleva os trunfos políticos em jogo".

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