Carlos, o Chacal, mostra-se combativo durante julgamento

Guerrilheiro urbano acusado por quatro atentados diz ser 'um revolucionário por profissão' em tribunal na França

iG São Paulo |

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Ilustração mostra Carlos, o Chacal em tribunal de Paris
O guerrilheiro urbano Carlos, o Chacal sorriu e ergueu o punho fechado nesta segunda-feira ao ser julgado por quatro atentados que, há 30 anos, deixaram 11 mortos e 150 feridos na França. "Sou um revolucionário por profissão", declarou a um tribunal especial para terrorismo Ilich Ramírez Sánchez, cuja vaidade não diminuiu em duas décadas nas prisões francesas após sua captura em Cartum, no Sudão, em 1994, por forças especiais.

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Ramírez agora tem 62 anos, uma barba grisalha e ostenta uma barriga, mas por cerca de 30 anos ele foi o rosto da luta militante marxista. A sedução revolucionária aumentou com seu gosto por charutos de Havana, pelas boinas ao estilo Che Guevara, o álcool e as mulheres.

Para seu círculo de admiradores, alguns deles presentes no tribunal nesta segunda-feira, ele era um combatente anti-imperialista romântico; para outros, era um assassino de sangue frio.

Vestido com uma jaqueta e um suéter azuis, Ramírez sentou-se em uma caixa de vidro, guardado por três policiais, ocasionalmente balançando um braço durante a abertura dos procedimentos. Ele se mostrou à vontade no tribunal.

Grato pelo apoio demonstrado pelas pessoas no fundo do salão, Carlos os saudou com o punho da revolução discretamente erguido e, com um leve sorriso. Parecia ser o dono da situação.

Desde o primeiro minuto, os seus dois advogados Isabelle Coutant Peyre - sua esposa - e Francis Vuillemin denunciaram "o julgamento injusto" e ameaçaram abandonar o local. Decidido a levar a audiência até o fim, o juiz Olivier Leurent imediatamente forçou os dois a ficarem.

Coutant Peyre questionou o julgamento de seu cliente por um tribunal penal composto apenas por juízes e sem jurados. Em sua opinião, esse tratamento é "discriminatório".

Ilich Ramirez Sanchez reivindicou, em uma entrevista publicada domingo por um jornal venezuelano, a autoria de mais de 100 ataques que mataram entre "1,5 mil e 2 mil pessoas".

Segundo seu biógrafo francês, Bernard Violet, Carlos "exagera nas cifras das vítimas que seus atos deixaram". "É surrealista. Ele exagera as cifras e não dá provas", afirmou o autor de Carlos, publicada em 1996. "Trata-se de uma provocação para chamar a atenção dos meios de comunicação."

Ele pode pegar uma segunda condenação à prisão perpétua por quatro atentados em 1982 e em 1983 que mataram 11 pessoas e feriram quase 200. Ele já foi condenado à prisão perpétua em 1997 por uma corte francesa por matar dois policiais e um informante.

O guerrilheiro esquerdista - que exultava a confiança de alguém convidado, e não sob ordens de comparecer ao julgamento - falou expansivamente sobre seus contatos do passado. Ele disse ao juiz que Yasser Arafat "em pessoa" lhe concedeu a cidadania palestina.

Ele também disse que o atentado contra um avião da Pan Am, em 1998, que explodiu enquanto sobrevoava a Escócia, nada "tem a ver com os líbios". Na ocasião, 270 pessoas morreram. "Existe muita manipulação", afirmou o acusado, após ter negado que o atentado foi orquestrado pelo serviço secreto líbio, como afirmou a Justiça britânica e o próprio país africano, em 2003.

Carlos falou sobre o atentado contra um avião da companhia francesa UTA, que explodiu no deserto do Saara e deixou 170 mortos. Uma associação de familiares das vítimas do voo constituiu uma acusação particular contra o réu no processo.

Segundo o venezuelano, os parentes dos mortos não "têm nada o que fazer nesse julgamento". Ele relatou uma operação na qual participou quando este avião foi atacado, e falou sobre a presença de aviões militares franceses em várias bases africanas, em particular na capital do Chade, N'djamena. "O neocolonialismo é pior que o colonialismo. E sou um anticolonialista de nascimento, como todo venezuelano."

A defesa do acusado argumenta que os crimes já foram prescritos. "Julgar um caso 30 anos depois dele ocorrer não parece um prazo razoável. Este processo não tem nenhuma legitimidade", afirmou o advogado Bernard Ripert.

Ramírez fez parte de uma geração de guerrilheiros urbanos que agiu nos anos 1970 e 1980 com ataques a personalidades e instituições do establishment. Na Alemanha Ocidental, o grupo Baader-Meinhof executou homicídios e, na Itália, as Brigadas Vermelhas promoveram uma campanha de violência.

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Carlos, o Chacal, em foto de 2000
Carreira

Durante anos, foi o nome mais famoso da luta armada internacional (embora poucos conhecessem seu rosto). Apontado como um megalomaníaco egocêntrico por seus detratores, Carlos virou personagem de livros, documentários e filmes.

A ligação com o comunismo vem de família. Seu pai era um advogado marxista venezuelano, que decidiu dar a cada um dos três filhos um dos nomes verdadeiros de Lênin - a Carlos, coube Illich, segundo nome do líder da revolução bolchevique (Vladimir Illitch Ulianov).

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Sua carreira de guerrilheiro começou na Jordânia, onde recebeu treinamento e teve seu primeiro contato com a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), após uma etapa de estudos acadêmicos em Moscou.

O nome de guerra "Carlos" surgiu pouco depois, quando o venezuelano passou a integrar as operações exteriores da FPLP e a realizar atentados contra alvos ligados a Israel.

Carlos ganhou fama na Europa ao ser apontado como autor da tentativa de assassinato do irmão de um rico empresário judeu, ocorrida em Londres, em dezembro de 1973. Um mês depois, teria sido o responsável pela explosão de uma bomba em uma agência bancária também na capital inglesa.

O apelido de Chacal foi dado pela polícia britânica, que ao revistar um de seus esconderijos, encontrou um exemplar do livro "O dia do Chacal", do inglês Frederick Forsyth.

Em 1975, Carlos realizou seu golpe mais ousado e espetacular. Junto com outros seis revolucionários, ele tomou de assalto a sede da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em Viena, onde ocorria uma reunião de ministros de diversos países.

Com dezenas de reféns sob a mira de fuzis, Carlos exigiu, e conseguiu, um avião para deixar a capital austríaca, rumo a Argel. Após libertar parte dos reféns, o grupo rumou para Trípoli, mas foi impedido de desembarcar por ordem do general Muamar Kadafi. Finalmente, o comando retornou para a Argélia, onde libertou o restante dos sequestrados e recebeu asilo do governo local.

Carlos voltou à ativa alguns meses depois do sequestro, embora tenha abandonado a FPLP por não ter obedecido ordens superiores e ter aceitado o pagamento de resgate pelos reféns da Opep. Com seu próprio grupo, ele continuou sua série de cem atentados em prol de causas anti-imperialistas, muitos deles na França.

A carreira de Carlos, o Chacal, terminou em 1994, quando vivia no Sudão. O governo sudanês permitiu que forças especiais francesas o capturassem em seu território e o levassem para Paris, sem que houvesse necessidade da abertura de um processo de extradição.

O último ato de rebeldia do homem que aprecia charutos cubanos e não vive sem seus cachecóis de seda aconteceu no mês passado. Do telefone da prisão da prisão de Santé, em Paris, Carlos deu entrevista a uma rádio francesa, contando que seu novo companheiro de cárcere era o ex-ditador panamenho Manuel Noriega.

Como punição, voltou a ser transferido para a solitária, onde já cumpriu grande parte de sua pena.

Com BBC, Reuters, EFE e AFP

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