Carla Bruni não serve como primeira-dama, diz autora de biografia

Em entrevista ao iG, jornalista diz que ex-top model é mistura de Don Juan com Maria Antonieta, sem nenhum interesse na França

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

Tudo sobre a verdadeira Carla Bruni. É o que promete a polêmica biografia não autorizada da primeira-dama da França. Encarada com desdém pela presidência francesa, “Carla, Une Vie Secrète” (Carla, Uma Vida Secreta, em tradução livre) não foi escrita para ofender, garantiu a autora. “Quis apenas mostrar quem é nossa primeira-dama. E cheguei à conclusão de que ela não serve para o posto que ocupa”, afirmou ao iG a jornalista Besma Lahouri, também autora do best-seller sobre o jogador Zinedine Zidane - “Zidane: Revelações sobre o Maior jogador do Mundo”.

Berma, ex-jornalista da revista L’Express, afirma que a primeira-dama francesa teve uma infância marcada por uma história familiar tortuosa e, desde criança, alimentou os sonhos de um dia ser famosa. Segundo a autora, Bruni tentou revidar contra a falta de atenção que teria recebido de seus pais por meio de sua vida amorosa. Rotulada por Besma de “Don Juan mulher”, a autora disse que a ex-top model nascida em Turim, na Itália, fez de tudo para ter a seus pés famosos como Eric Clapton e Mick Jagger.

Divulgação
Biografia não autorizada chega às livrarias francesas nesta quarta-feira
Mas a mistura de Don Juan com Maria Antonieta – que, como Carla Bruni, não tinha o menor interesse na França, disse Besma – teve de ser disfarçada pela presidência francesa. Para ter Bruni como mulher do presidente direitista Nicolas Sarkozy, o Palácio do Eliseu tentou apagar o passado de Carla, moldando-a como uma mulher calma, comportada, respeitada e de fala mansa. Operação que, segundo Besma, também se reflete na seleção rigorosa que a presidência francesa faz dos jornalistas com acesso a ela.

No livro, a autora revela que, na tentativa de controlar estrategicamente cada passo de sua vida e a passagem do tempo, Bruni tornou-se obcecada pela própria imagem e recorreu a diversas cirurgias plásticas desde os 16 anos. Durante a apuração do livro, Besma chegou à conclusão de que a Carla Bruni apresentada oficialmente é praticamente o oposto da real e que o presidente Sarkozy é mais imprevisível do que sua mulher.

“Carla, Une Vie Secrète” é lançado nesta quarta-feira na França pela Flammarion, com 30 mil cópias para a primeira edição. Ainda não há previsão da chegada do livro ao Brasil. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

iG – Como surgiu a ideia de escrever uma biografia sobre Carla Bruni?
Besma Lahouri – Imagine que você é jornalista e não há livro algum sobre a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É a mesma coisa. Todo o mundo “conhece” Carla Bruni, mas nós franceses não a conhecemos, porque ela não quer ser conhecida. Ela nunca fala e só a vemos em páginas de revistas. Quis saber quem é nossa primeira-dama e como ela chegou até aqui. Não é questão de eu gostar ou não dela. Mas me assusta o fato de ela ter sido uma pop star muito famosa e, depois que se casou, ter-se tornado uma nova Carla Bruni, o oposto da real. Descobri que ela é extremamente manipuladora, sempre planejou cada passo de sua vida como modelo e cantora, e agora escolhe os jornalistas com quem vai falar. A história oficial de Bruni não é sua história real. A que relato no livro é de uma mulher que disse “sim” a um homem (Nicolas Sarkozy) que havia conhecido 15 dias antes. Como casar com alguém que se conhece há apenas 15 dias? Também tento explicar que Bruni, aos 40 anos, queria os holofotes voltados para si no momento em que Sarkozy se via sozinho e abandonado por sua ex-mulher, Cecília Ciganer, e como ambos viram o casamento como oportunidade para o que almejavam.

iG – O que descobriu sobre a vida amorosa da primeira-dama?
Besma - No livro explico como Bruni sempre, sempre, sempre tentou controlar sua vida amorosa. Aos 15 anos pensou “um dia serei famosa, quero ser famosa”. E isso fez com que se apaixonasse por Micky Jagger sem conhecê-lo. Ela fez de tudo para chegar até ele e fazer com que todos soubessem que estavam saindo, ainda que ele não quisesse espalhar a notícia. Acabo me perguntando: ela realmente se apaixonou por Sarkozy ou só quis se casar com ele? No início do livro, relato como Bruni tentou lutar contra a sombra de Cecilia e como pôs em curso uma estratégia para fazer com que seus amigos soubessem que se encontrava com o presidente, até se aproximando da porta-voz da inteligência francesa para espalhar a notícia. Aos 40 anos, continuou levando adiante sua ideia fixa de ser famosa. E depois de ter os holofotes de volta para si, calou-se. Mas, também, o que poderia fazer se era contra as políticas de Sarkozy antes de ele se tornar presidente?! Agora ela está com um dos mais poderosos presidentes do mundo e ainda, durante suas férias, quer se cercar por seus ex-namorados .

iG – Quantas pessoas você entrevistou?
Besma - Conversei com 100 pessoas. Muitos políticos, fotógrafos e famosos na França, como Jean Paul Gaultier e Christian Lacroix. O interessante é que essas fontes hoje não reconhecem mais Bruni. Como imaginá-la calma, sem rock n’ roll, sempre dentro de uma jaula, sem falar com ninguém, sem interesse no que acontece na França e com medo do que dirão dela? Ela não serve para o trabalho. Para a presidência você tem de ter uma posição e estar focado no país. Não se pode ter uma vida privada como a dela. No meu livro, digo que Sarkozy levou adiante o plano de torná-la primeira-dama, pois quis provar a todos que poderia se casar com uma mulher bonita, jovem e famosa.

iG – Há pessoas que se negaram a colaborar com seu livro?
Besma - Na França muito me conhecem, mas não pude falar com cerca de dez pessoas próximas a Carla, que perguntaram a ela se poderiam falar comigo e ela disse “não”. A maioria, no entanto, dizia “Poxa, não estamos no Irã ou na Coreia do Norte, e vamos falar”. Você consegue imaginar um ex-ministro ou artista pedindo permissão para a primeira-dama para poder me dar uma entrevista? Bruni e Sarkozy quiseram muito controlar o que seria escrito sobre eles, mas não podem.

iG – Você tentou conversar com a própria primeira-dama?
Besma – Claro! Quando quis falar com ela, o Palácio do Eliseu disse que preferiam que eu falasse com pessoas que a conheciam. Pensei: “Ok, não preciso da colaboração dela para o livro, não quero escrever para ela. Só quero conseguir responder às minhas perguntas”. Um dos medos que tinham, por exemplo, era de que eu falasse sobre as cirurgias plásticas que ela fez ou mesmo do jeito que chegou até o Sarkozy.

Arnaud Frévier © Flammarion
A jornalista Besma Lahouri entrevistou 100 pessoas para o livro sobre Carla Bruni
iG – E o que você descobriu sobre as cirurgias plásticas que ela fez?
Besma - Estive com o médico que a operou. Quando fez a primeira cirurgia plástica tinha apenas 16 anos, mas não pude contar todas que fez até seus atuais 42 anos. Não condeno fazer plástica, talvez daqui a dez anos eu queira também. Mas acho estranho ela sempre negar que fez. E quis entender por que uma mulher quis controlar tudo sobre ela, incluindo seu corpo.

iG – Uma das razões, na sua opinião, seria o histórico familiar complicado que teve?
Besma – É exatamente isso. Seu pai nunca quis, na verdade, saber dela. Carla nunca foi como as outras crianças. Seu irmão recebeu o amor de seus pais, enquanto sua irmã recebeu de seu pai. Bruni quis mostrar a seus pais que um dia seria famosa. E, quando se casou com nosso presidente, pôde mostrar à sua mãe: fiz algo na minha vida e mereço respeito.

iG – Carla Bruni se assemelha mais com um Don Juan mulher ou uma Maria Antonieta?
Besma - Ela é os dois. Maria Antonieta se casou com 14 anos e depois, em um país estrangeiro e ao lado de um marido rude, nunca se interessou pelo que acontecia na França. Carla Bruni chegou à França com 7 anos e nunca fez amizades. Tornou-se francesa quando se casou. Acredito que ela nunca quis ser francesa e, nesse aspecto, assemelha-se a Maria Antonieta.

iG - O que acha que seu livro traz de diferente para os leitores, já que histórias sobre a intensa vida amorosa de Carla Bruni já eram conhecidas?
Besma – Meu livro não é duro ou agressivo. Não quero ofender ninguém. Apenas quis mostrar quem é Carla Bruni. Se os americanos não soubessem nada sobre sua primeira-dama, Michele Obama seria criticada. No meu livro, as pessoas virão que Carla é uma boa pessoa, apenas não serve para esse trabalho.

iG – Acredita que, depois do livro, os franceses passarão a olhar a primeira-dama de outra maneira?
Besma – Sim, eles olharão com outros olhos. Se o livro não fosse interessante, não falariam dele. Na França as pessoas querem lê-lo, o que significa que querem saber quem é Carla Bruni.

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