Capturar nosso homem superava riscos, diz Obama

Na TV, presidente americano relata como foram os 40 minutos da operação e sugere que terrorista tinha proteção no Paquistão

iG São Paulo |

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou neste domingo que a captura de Osama Bin Laden – chamado por ele de “nosso homem” – era mais importante do que os riscos da operação desencadeada na semana passada que resultou na morte do líder terrorista.

A operação, disse Obama em entrevista ao programa "60 Minutes", da rede CBS, representou os 40 minutos mais longos de sua vida – a exceção, disse, foi a época em que sua filha Malia ficou doente com uma meningite, quando era criança.

Reprodução/CBS
O presidente americano, durante a entrevista à rede americana CBS
Obama admitiu que a operação, "se não tivesse o encontrado, teria tido significativas consequências". Ele disse que avaliou a "evidência ( de capturar Bin Laden ) no momento de aprová-la em 55%". "No final do dia, ainda era uma situação de 55% para 45%. Quero dizer, não podíamos dizer definitivamente que Bin Laden estava lá", explicou Obama em sua primeira entrevista após a morte do líder da Al Qaeda.

Segundo o presidente, com a morte de Obama, os Estados Unidos têm agora a oportunidade de desferir um "golpe fatal" na Al-Qaeda. Isso porque, segundo ele, informações foram apreendidas na casa onde o terrorista se escondia, no Paquistão.

Dados sobre a rede terrorista estão sendo extraídas de computadores, discos rígidos e dispositivos de armazenamento coletados na casa do extremista, explicou Obama.

"Isto não significa que vamos derrotar o terrorismo", afirmou. "Isto não significa que a Al-Qaeda não tenha se espalhado para outras partes do mundo onde temos que realizar operações. Mas significa que temos uma chance, eu acho, de realmente desferir um golpe fatal nesta organização, se seguirmos agressivamente nos próximos meses".

AP
Bin Laden aparece em imagem retirada de vídeo sem data
"Estamos, obviamente, colocando tudo o que temos em análises e avaliando todas as informações", disse. "Mas prevemos que podem nos levar a outros terroristas que estamos procurando há um longo tempo, outros alvos de grande valor".

Ainda de acordo com o presidente, as autoridades americanas podem aprender potencialmente sobre conspirações já existentes, como a Al-Qaeda operava e seus métodos de comunicação.

"E agora temos a oportunidade, ainda não terminamos, mas temos a oportunidade, eu acho, de realmente e finalmente derrotar - pelo menos a Al-Qaeda na região fronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão".

Ele elogiou também os integrantes do SEAL, da Marinha, comando que realizou a operação.
"É um breu completo, eles estão tirando paredes, portas falsas, recebendo tiros, eles mataram Bin Laden, e ainda tiveram a presença de espírito de reunir um monte de material de Bin Laden, que será um tesouro de informações", afirmou.

Pressão sobre o Paquistão

Obama disse ainda que o Paquistão ainda deve explicações sobre se os oficiais daquele país sabiam do paradeiro do ex-líder da Al-Qaeda. Segundo Obama, Bin Laden devia ter "algum tipo de rede de apoio" no Paquistão, mas acrescentou que não sabe se membros do governo paquistanês estariam envolvidos nesta rede. "Não sabemos se podem ter sido algumas pessoas dentro ou fora do governo. Isso é algo que temos de investigar e, mais especialmente, que o governo paquistanês deve investigar", disse Obama.

"Já o comunicamos ( ao governo paquistanês ) e eles nos disseram que têm profundo interesse em conhecer que tipo de rede de apoio Bin Laden pôde ter tido", destacou o presidente americano. "Mas essas são questões que não vamos poder responder em três ou quatro dias. Levaremos um tempo para podermos aproveitar o material de inteligência que conseguimos obter", explicou.

Em outra entrevista, o conselheiro de segurança nacional americano Tom Donilon, disse que o Paquistão precisa investigar e saber como o ex-líder da Al-Qaeda viveu por quase seis anos tão próximo à capital do país, Islamabad, em uma casa, cujo bairro abriga uma academia de polícia.

À rede de TV americana NBC, Donilon disse não ter visto prova alguma de que o governo paquistanês soubesse pistas do terrorista. Ele acrescentou também que o governo americano quer interrogar as três viúvas de Bin Laden, que estão sob custódia no Paquistão. Com a morte de Bin Laden, aumentaram as especulações de que o novo líder da rede Al-Qaeda poderia ser o vice, Ayman al-Zawahiri. Mas, de acordo com Donilon, o egípcio não "chega nem perto de ser o líder que Osama Bin Laden foi".

O embaixador do Paquistão nos EUA, Hussain Haqqani, assegurou, também neste domingo, que irão "rolar cabeças" de funcionários do alto escalão paquistaneses, após a divulgação da notícia de que Osama Bin Laden se escondia no Paquistão. "Cabeças vão rolar assim que a investigação terminar", declarou à rede de TV americana CNN. "Se essas cabeças rolarem por uma incompetência, informaremos aos Estados Unidos, e se for descoberta, Deus nos livre, uma cumplicidade, haverá tolerância zero", prometeu.

À frente do commando das forças militares americanas no Afeganistão, o general David Petraeus disse que a morte de Bin Laden pode diminuir a influência da Al-Qaeda no Taleban afegão. Em entrevista à Associates Press, o futuro diretor da agência de inteligência americana (CIA) alertou, no entanto que o país no sul da Ásia ainda é um potencial refúgio para terroristas de grupos internacionais, sendo a Al-Qaeda apenas um deles.

Comando

De acordo com o governo paquistanês, Bin Laden era uma figura ativa no comando da rede extremista, e o esconderijo onde esteve em Abbottabad, era um centro de comando e controle, segundo o serviço secreto americano. De acordo com os EUA, ao contrário do que se acreditava, o terrorista não tinha uma vida nômade nos últimos anos e estava profundamente envolvido nas tomadas de decisão da Al-Qaeda.

"Esse complexo em Abbottabad era um centro ativo de comando e controle para o líder da Al-Qaeda e está claro (...) que ele não era apenas um pensador estratégico do grupo", disse um oficial que não quis se identificar a jornalistas durante uma entrevista no Pentágono, em Washington. Ele era ativo no planejamento operacional e na tomada de decisões táticas", acrescentou.

Antes da morte de Bin Laden na semana passada, os EUA haviam sugerido que ele vivia em fuga e era apenas um símbolo para a Al-Qaeda.

Parentes

Depois da morte de Bin Laden, as autoridades do Paquistão, no centro das críticas, estudam agora o que fazer com os familiares do ex-líder da Al-Qaeda que estavam com ele no esconderijo na cidade de Abbottabad. As forças americanas, que executaram a operação na casa, levaram o corpo do líder terrorista e o de outro adulto, mas deixaram para trás no prédio várias pessoas.

AFP
Esconderijo onde estava Bin Laden, em Abbottabad, no Paquistão
Uma fonte da principal agência dos serviços secretos paquistaneses (ISI) garantiu à agência EFE nesta semana que o Paquistão tem sob custódia uma mulher de Bin Laden, supostamente de origem iemenita e uma de suas filhas, além de outras crianças que estavam na casa. Algumas versões da imprensa do país numeram em até três o número de esposas nas mãos das forças de segurança paquistanesas, e revelam que parte das crianças que viviam na casa seriam filhos do próprio Bin Laden. Essas informações, no entanto, ainda não foram confirmadas.

De acordo com a edição do jornal paquistanês Asharq Al Awsat, a mãe da primeira esposa de Bin Laden sofreu um derrame cerebral e morreu após receber a notícia da morte do genro. De acordo com a publicação, Nabiha Al Ghanem "não pôde suportar a notícia e desmaiou", após o anúncio da morte do fundador da Al-Qaeda.

Nabiha Al Ghanem, de cerca de 70 anos de idade, faleceu pouco depois "devido a um acidente vascular cerebral" em um hospital de Latakia, na Síria. Osama Bin Laden casou-se com uma de suas filhas, Najwa, prima de origem síria, quando ele tinha apenas 17 anos. O casal teve 11 filhos, segundo o periódico.  Najwa saiu do Afeganistão poucos dias antes do ataque do 11 de Setembro e atualmente mora na Síria, acrescenta o jornal.

Mensageiro

Um telefonema feito por um mensageiro de confiança de Bin Laden teria sido o atrativo que motivou o início da vigilância pelos Estados Unidos ao complexo de Abbottabad, no Paquistão, que escondia o ex-líder terrorista Osama bin Laden. Segundo o jornal Washington Post, a ligação teria sido decisiva para encontrar o ex-líder terrorista.

O mensageiro kwaitiano Abu Ahmad teve a identidade descoberta há cerca de 4 anos e passou a ser monitorado pelo serviço de inteligência do governo americano depois que recebeu um telefonema de um amigo.

Na ligação, segundo o Washington Post, Ahmad foi vago ao responder ao amigo aonde estaria. Na ocasião, Ahmad disse ter "voltado ao lugar e às pessoas em que estava antes", o que despertou a atenção dos americanos.

Como o complexo de Bin Laden não tinha telefones ou internet, o serviço de inteligência americano encontrou dificuldade em espionar o local. Em monitoramento por imagens de satélite, o kwaitiano chamou a atenção por sair do complexo para efetuar ligações e retornar sempre após 90 minutos. Além disso, cumpria uma rotina de desligar e retirar a bateria do aparelho, antes de retornar ao prédio.

Outro detalhe que despertou o interesse dos americanos foi a aparição diária do homem no pátio do esconderijo por uma ou duas horas. Apelidado de “a lebre” pelos analistas, o kwaitiano nunca deixou o complexo por muito tempo e a sua rotina sugeria que ele não era apenas um morador, mas praticamente um prisioneiro.

Pelo monitoramento, os americanos reportaram à Obama que as chances de o complexo abrigar Osama bin Laden eram de 60%. O presidente americano autorizou então a entrada no complexo para captura do ex-líder terrorista. Na ação, o mensageiro de confiança de Bin Laden foi morto.

Vídeos

No sábado, o Pentágono divulgou vídeos caseiros de Bin Laden, apreendidos no esconderijo de Abbottabad, onde ele foi morto na semana passada. As gravações, obtidas pelos Seals da Marinha americana, mostram o terrorista assistindo a si mesmo em reportagem televisiva, assim como preparando mensagem em vídeo para os Estados Unidos.

No total, cinco vídeos foram divulgados. Em um deles, feito em outubro ou novembro de 2010, o ex-líder da Al-Qaeda veste uma espécie de chapéu branco e uma túnica branca, enquanto fala diretamente para a câmera, no mesmo estilo dos pronunciamentos em vídeo anteriores do líder da rede extremista. Não há áudio no vídeo, mas oficiais do Pentágono disseram se tratar de uma mensagem endereçada aos EUA.

Em uma entrevista coletiva em Washington, o Pentágono também divulgou um vídeo de propaganda gravado por Bin Laden. Em um outro vídeo, Bin Laden aparece assistindo a um programa sobre ele mesmo em um canal de televisão árabe, sentado no chão de uma sala e enrolado no que parece ser um cobertor ou casaco. A barba do líder da Al-Qaeda parece muito mais grisalha neste vídeo do que nos vídeos de propaganda da rede extremista.

Não há nada nos vídeos divulgados neste sábado que identifique que Bin Laden está no esconderijo onde foi morto em Abbottabad, no Paquistão. A divulgação das imagens, no entanto, é parte de um esforço do governo americano para convencer os céticos que Bin Laden foi realmente morto na operação da semana passada.

No material encontrado no complexo em Abbottabad, estariam também cartas pessoais de Bin Laden a outros membros da rede.

*Com AP, BBC, AFP e EFE

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