Capitão de navio da Itália diz ter caído ao mar durante naufrágio

Em depoimento, comandante nega abandono de embarcação e afirma que tropeçou para dentro de bote salva-vidas durante tumulto

iG São Paulo |

O capitão do Costa Concordia, Francesco Schettino , reiterou nesta terça-feira que não abandonou o navio após ele tombar durante naufrágio causado por um choque contra rochas na costa da Ilha de Giglio, na Itália, na sexta-feira. Em depoimento de três horas perante a juíza de instrução Valeria Montesarchio, Schettino afirmou que tropeçou e caiu dentro de um bote salva-vidas em algum momento depois do choque e não conseguiu voltar à embarcação pelo fato de ela ter ficado em um ângulo de 90 graus após a colisão.

Perfil: Saiba mais sobre o capitão do navio naufragado na Itália

AP
O capitão do navio Costa Concordia, Francesco Schettino, deixa o tribunal de Grossetto, na Itália
Zoom: Veja imagens do naufrágio na Itália

De acordo com o comandante, ele escorregou para dentro do bote enquanto ajudava os outros passageiros a deixar o navio. "Os passageiros lotavam os deques, pegando os botes à força. Nem usava um colete salva-vidas porque havia dado o meu a um dos passageiros. Eu tentava fazer com que as pessoas entrassem nos botes de uma forma ordenada. De repente, como o navio estava em um grau de 60 a 70 graus, tropecei e acabei dentro de um deles", disse.

Em seu depoimento, Schettino disse que ficou preso no bote por uma hora antes de ele descer para o nível da água. “Suspenso lá, não era possível descer o bote para a água, porque o espaço estava bloqueado por outros botes." Com ele também estavam o grego Dimitri Christidis, o vice-comandante do Concordia, e Silvia Coronica, a terceira na linha de comando, de acordo com o jornal italiano La Repubblica.

Schettino foi detido no sábado sob acusação de homicídio culposo múltiplo (sem intenção de matar), naufrágio e abandono do navio, crimes pelos quais pode ser condenado a até 15 anos de prisão. Ele nega as acusações.

Em seu depoimento, o capitão reconheceu que mudou a rota do navio, aproximando-o da ilha no litoral da Toscana, onde bateu e posteriormente encalhou, para saudar o ex-capitão dos Costa Cruzeiros (companhia proprietária da embarcação) Mario Palombo . Após a promotoria ter pedido a prisão preventiva do capitão, a  juíza decidiu decretar sua prisão domiciliar .

“É verdade que a saudação era para o comandante Mario Palombo, com quem estava ao telefone. A rota foi decidida quando partimos de Civitavecchia, mas cometi um erro na aproximação. Navegava a olho nu, porque sabia bem as profundidades e já havia feito essa manobra três ou quatro vezes antes. Mas dessa vez ordenei que virassem muito tarde, e acabei em água muito rasa. Não sei por que aconteceu. Fui uma vítima de meus instintos", disse.

De acordo com o advogado de Schettino, durante as várias horas de interrogatório, o capital manteve que é inocente perante a juíza de instrução. "Ele fez uma manobra brilhante e soube conservar a lucidez necessária para fazer o navio encalhar perto da costa, salvando a vida de centenas ou milhares de vidas", disse Bruno Leporatti, referindo-se à aproximação do navio do porto da ilha.

Os promotores, entretanto, disseram que o depoimento de Schettino não muda o caso contra ele. De acordo com o procurador Francesco Verusio, a Costa Cruzeiros, admitiu que houve "erro humano" e que o capitão não respeitou o regulamento, aproximando-se até 150 metros da costa.

O depoimento do comandante ocorreu no mesmo dia em que equipes de resgate que trabalham para achar as vítimas encontraram cinco corpos dentro da embarcação, elevando para 11 o número de mortos na tragédia .

Contradição

O depoimento do comandante à juíza é incoerente com gravações da caixa preta do navio e de ligações telefônicas divulgadas pela imprensa italiana que indicam que o capitão teria ignorado uma ordem da guarda costeira italiana para retornar ao navio e coordenar a retirada dos passageiros e tripulantes.

Inconsequência: Capitão ignorou ordem de retornar ao navio, diz imprensa italiana

Ouça o áudio da conversa do capitão do navio e a guarda costeira:

De acordo com os relatos publicados, em uma conversa com a guarda costeira várias horas após o navio se chocar com a rocha que provocou seu naufrágio, Schettino dá respostas evasivas, sugerindo que não estava no controle da retirada dos ocupantes do navio.

Segundo o jornal Corriere della Sera, a guarda costeira perguntou ao capitão quantos ainda estavam a bordo. Embora a embarcação estivesse cheia, o comandante respondeu que apenas entre 200 e 300.

A resposta levantou suspeitas e a guarda costeira perguntou se ele tinha deixado o navio. Schettino teria dito que sim. "O que você está fazendo? Está abandonando o resgate? Capitão, isto é uma ordem, estou no comando agora. Você declarou 'abandonar o navio'", afirma o oficial da guarda costeira a Schettino em determinado momento da conversa.

Ao ouvir do oficial que já havia corpos encontrados, Schettino pergunta quantos e ouve como resposta: "Isso é para você me dizer. O que você está fazendo? Quer ir para casa?", questiona o interlocutor.

O comandante garantiu que voltaria ao navio, mas testemunhas e investigadores que cuidam do caso afirmam que ele não voltou e disseram que ele pegou um táxi em direção a um hotel.

O Costa Concordia naufragou na costa italiana na noite de sexta-feira, com mais de 4,2 mil a bordo, incluindo cerca de 1 mil tripulantes.

Com AP

    Leia tudo sobre: naufrágioitáliacosta concordia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG