Os capacetes azuis da ONU são acusados de ineficiência em conter o violento conflito no leste da República Democrática do Congo (RDC) e proteger a população civil, num momento em que analistas apontam para a falta de recursos humanos e logísticos das tropas de paz.

Apesar da presença de 5.800 capacetes azuis na província de Kivu Norte (leste da RDC, na fronteira com Ruanda e Uganda), os rebeldes tutsis de Laurent Nkunda conseguiram avançar, ficando a apenas 15 quilômetros de Goma, capital provincial, e agora seguem para a cidade estratégica de Kanyabayonga.

Na semana passada, também debaixo do nariz dos capacetes azuis, sangrentos crimes de guerra foram cometidos na região, segundo Alan Doss, chefe da missão das Nações Unidas na RDC (MONUC), que conta com 140 homens no local.

Isso, no entanto, não deveria ter acontecido, já que o mandato da ONUC, apesar de identificar as tropas como forças de paz, autoriza seus homens a disparar para proteger a população civil.

Diante da atuação de seus homens, a ONU fez um "mea culpa", reconhecendo que deveria ter defendido os civis, segundo o chefe da missões de paz das Nações Unidas, Alain Le Roy.

Perto de Goma, a MONUC já disparou em várias ocasiões contra os rebeldes e está reforçando seus efetivos.

Seu objetivo é evitar que se repita o que aconteceu em 2004, quando os homens de Nkunda assumiram temporariamente o controle de Bukavu, na província de Kivu Sul (na fronteira com Ruanda, Burundi e Tanzânia), apesar da presença na região de 600 capacetes azuis.

Os soldados da ONU "são guarda-barreiras. Quando algo dá errado, eles se salvam", revelou à AFP uma fonte diplomática, que pediu o anonimato.

Essas e outras críticas recorrentes se transformaram em um grande mal-estar no alto comando da MONUC, provocando a demissão de seu comandante, o espanhol Vicente Díaz de Villegas, no final de outubro, no pior momento dos enfrentamentos entre o exército congolês e os rebeldes.

Embora tenha alegado motivos pessoais, fontes diplomáticas afirmam que Villegas deixou o posto porque não tinha meios para cumprir sua missão.

A MONUC está na RDC desde 2001, e é considerada a missão de paz da ONU mais importante em atuação hoje, com 17.000 soldados.

Mais do que um reforço nas tropas, como já foi pedido por diversas autoridades, a MONUC precisa neste momento de "meios melhores" de informações (iamgens de satélite e aviões não tripulados) para saber sobre a movimentação dos rebeldes, estimou Xavier Zeebroek, do Grupo de Pesquisa e Informação sobre a Paz e a Segurança (GRIP), em Bruxelas.

Além disso, Braud destaca que a MONUC dispõe de apenas 1,1 bilhão de dólares por ano, o que equivale a "uma semana de presença americana no Iraque".

"Os rebeldes acusam (os capacetes azuis) de lutar contra eles e o exército de não combater a seu lado como deveriam. E a população reclama que não é protegida. Resultado: ninguém confia neles!", resumiu Zeebroek.

Mais de 3,5 milhões de pessoas já morreram na guerra, segundo algumas estimativas.

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