Caos e protestos mudam fisionomia do Cairo

Toque de recolher e esquema de segurança montado para protestos impedem tráfego em vias entre aeroporto e centro da capital

Raphael Gomide, enviado ao Cairo, Egito |

Vista do alto de um avião, a região perto do aeroporto do Cairo, a sempre movimentada capital do Egito, parecia uma área fantasma na noite desta terça-feira.

Às 21 horas locais (17 horas em Brasília), praticamente não havia carros - a reportagem do iG contou apenas um - circulando pelas vias expressas que ligam o aeroporto internacional ao centro, bloqueadas por forças de segurança por causa dos protestos que reivindicam há oito dias a saída do presidente Hosni Mubarak. Como concessão aos manifestantes, que exigem sua renúncia imediata, o líder egípcio anunciou em pronunciamento na TV que não concorrerá à reeleição nas eleições previstas para setembro .

A tranquilidade é uma situação rara no Cairo, conhecido pelo transito caótico, pelos engarrafamentos ao estilo dos de São Paulo. Em algumas ocasiões, a viagem do centro ao aeroporto no horário noturno poderia levar 1h30 ou até 2h.

Os egípcios que chegam olham pela janela do avião em busca de novidades sobre o país. No voo vindo da Itália, não havia outros estrangeiros.

Por causa do bloqueios e do toque de recolher, desde as 16 horas locais (20 horas em Brasília) não se podia ir do aeroporto internacional do Cairo até o coração da cidade, onde manifestações reuniram nesta terça-feira centenas de milhares de egípcios pedindo a deposição de Mubarak, há 30 anos no poder. A circulação de automóveis é restrita aos subúrbios, também silenciosos, entre pontos de controle da polícia e do Exército.

“Impossível”, diz entre enfático e espantado o agente de informações do aeroporto ao ouvir que o repórter pretendia ir ao centro. “Por causa do bloqueio das vias e do toque de recolher, só amanhã de manhã. Eu estou aqui há 24 horas”, disse. A informação é confirmada por outros funcionários e por recém-chegados à capital do Egito.

O atendente fumava tranquilamente e se espreguiçava, diante da evidente falta do que fazer no vazio terminal de desembarque. O normalmente conturbado aeroporto tinha poucos aviões no pátio, sendo a maioria de companhias regionais. Os taxistas que disputam os clientes estrangeiros desapareceram.

Hotéis

Para quem chega à noite ao Cairo, as únicas opções são hotéis do aeroporto, a cerca de 800 metros. “Todos os hotéis do Cairo estão vazios”, disse a agente de turismo Abdel Ahmed, tentando vender seus serviços. Sem transporte o percurso deve ser feito a pé, passando por restos de obra e terra.

Se os hotéis do centro estão vazios, os do aeroporto estão cheios e procuram aproveitar a demanda. Uma suíte é oferecida inicialmente por 700 euros, sob a alegação de que é o último alojamento disponível. Baixa para 500 euros e, com evidência da possibilidade de concretizar o negócio, encontra-se quarto padrão por 200 euros. Sem internet e com cheiro de cigarro. Além das vias, o governo tem bloqueado também a internet, meio usado com sucesso na mobilização de manifestantes para protestos no Egito. “Temos internet, mas nesses últimos dias estamos sem”, explica uma recepcionista sem detalhar o motivo.

Na descrição imprecisa do operador de câmbio e do recepcionista, o dia foi de manifestações mais ou menos tranquilas. Ao ouvir a palavra "violência", porém, o operador encerra a conversa. “Aqui está o seu recibo, senhor”, disse.

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