Caos de eleição presidencial deixa cenário incerto no Haiti

Milhares protestaram no domingo motivados por denúncias de fraude; conselho diz que votação foi válida na maior parte do país

iG São Paulo |

AP
Funcionário eleitoral espera atrás de urnas para começar contagem de votos em Porto Príncipe, capital do Haiti (28/11/2010)
O Conselho Eleitoral do Haiti anunciou que as eleições presidenciais de domingo foram válidas na maioria do país, apesar dos protestos de milhares de haitianos, motivados pelas denúncias de fraudes feitas por vários candidados que pediram a anulação do processo.

"A jornada eleitoral chegou ao fim e com sucesso", declarou o presidente do Conselho Eleitoral Provisório (CEP), Gaillot Dorsainvil. O CEP informou que a votação foi anulada em 56 locais de um total de 1,5 mil em todo o país.

"Vamos estudar caso por caso os locais onde aconteceram problemas", afirmou o diretor-geral do CEP, Pierre-Luis Opent. "Dentro de 48 a 72 horas decidiremos o que faremos", afirmou.

"O CEP estará em condições de produzir um balanço com o retorno de seus funcionários do interior, dentro de três dias, e agradece a população por ter participado do processo democrático", disse.

Milhares de haitianos protestaram no domingo em Porto Príncipe e pediram a anulação das eleições legislativas e presidenciais. Eles denunciaram uma manipulação do partido do presidente René Preval.

A ONU pediu calma e manifestou preocupação com os vários atos de violência no país. Ao fim da votação, marcada pela violência e por denúncias de fraude, 12 dos 18 candidatos à presidência, incluindo os favoritos Mirlande Manigat e Michel Martelly, denunciaram em uma declaração conjunta uma "conspiração do governo e do CEP" para beneficiar o candidato governista Jude Celestin.

Milhares de haitianos foram às ruas de Porto Príncipe para exigir a anulação das eleições presidenciais e legislativas. Ao fim de um dia eleitoral marcado por episódios de violência e denúncias de fraude, os manifestantes percorreram os setores de Delmas e Pétion-ville, na capital, onde se encontra a sede do CEP.

Capacetes Azuis da ONU e policiais haitianos foram chamados para reforçar a segurança em frente à sede do organismo eleitoral. A manifestação foi encabeçada pelo cantor e candidato Michel Martelly, um dos favoritos segundo pesquisas de opinião, ao lado de Wyclef Jean, astro mundial do hip-hop, cuja candidatura não foi aceita pelo CEP.

Em um ambiente festivo, os manifestantes distribuíam folhetos favoráveis a Martelly e, pelo caminho, rasgavam cartazes de Celestin, que acusam de ser marionete de Préval. Quase 5 milhões de haitianos estavam registrados para votar e renovar o Parlamento.

Reação dos EUA

Nesta segunda-feira, observadores dos EUA estimaram que as eleições estavam repletas de irregularidades e chamaram a comunidade internacional a rejeitar essa "farsa óbvia". "Desde a proibição do partido mais popular de participar da eleição, até irregularidades no dia da votação, incluindo preechimento irregular de urnas e impedimento de muitos eleitores de votar, essas eleições foram uma farsa óbvia do início ao fim", disse Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa Política e Econômica, em um comunicado.

Alex Main, analista desse centro de estudos, que se encontrava no Haiti para observar a realização das eleições, foi testemunha de diversas irregularidades, incluindo o depósito de cédulas inválidas em uma urna em uma seção de votação.

Mortes por cólera

O Haiti votou no domingo em meio a uma epidemia de cólera que afeta o país desde outubro. O número de mortos chegou a 1.721, de acordo com os números mais recentes divulgados nesta segunda-feira pelo Ministério da Saúde Pública e População (MSPP).

No total, 75.888 pessoas foram atendidas com a doença, das quais 33.485 foram internadas. Deste total, 32.283 se recuperaram e receberam alta. A cólera, que estava erradicada do país caribenho até outubro, deixou 760 mortos no Departamento de Artibonite, o mais afetado pelo surto.

A origem da epidemia ainda é desconhecida, embora, segundo testes realizados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), em Atlanta (EUA), é causado por uma cepa similar à encontrada na Ásia meridional. Setores políticos e sociais do país acusam a Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah) de ter originado a epidemia.

*Com AFP e EFE

    Leia tudo sobre: haitieleiçõescólera

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG