Caos ameaça distribuição de alimentos para 600 mil desabrigados no Haiti

Javier Otazu. Porto Príncipe, 17 jan (EFE).- O caos e a insegurança ameaçam a continuidade das operações de distribuição de alimentos no Haiti, já que a chegada dos caminhões com pacotes de ajuda gera quase sempre tumultos.

EFE |

Muitos pontos de concentração de desabrigados estão desde terça-feira, o dia do terremoto, sem receber ajuda alimentar, como é o caso dos milhares que estão em Peguyville, que até agora só viram chegar um caminhão com água potável.

Por toda a capital haitiana, Porto Príncipe, começam a proliferar cartazes junto aos inúmeros acampamentos com mensagens como "SOS" ou "Ajuda" escritas em vários idiomas, às vezes acompanhados de frases como "Precisamos de tudo".

Nos estabelecimentos do centro da cidade, os saques continuam quase impunemente. Grupos de rapazes invadem armazéns e jogam pelo telhado todo tipo de mercadoria para milhares de pessoas que as recebem embaixo.

Os militares da ONU passam pela frente sem intervir, enquanto a Polícia haitiana dá tiros para o alto para conter os saques, sem sucesso.

Muitos desabrigados reclamam de não ter recebido nenhuma ajuda, apesar de o aeroporto de Porto Príncipe estar vivendo verdadeiros engarrafamentos de aviões com cargas de ajuda humanitária como mantimentos e remédios, principalmente.

Os helicópteros cortam o céu de Porto Príncipe constantemente, e os desabrigados os olham ansiosos para saber se trazem ajuda para eles, pois sabem que, em algumas ocasiões, os americanos lançam pacotes de comida do ar.

"É preciso compreender, a coordenação desabou, assim como nossos edifícios do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e da própria Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah)", disse Alejandro López-Chicheri, chefe de comunicações do PMA para a América Latina.

No entanto, os desabrigados não compreendem. "Só sei que em três dias comi um prato de arroz dado por uma vizinha", contou Bobien Ebristout, que ocupa uma espécie de barraco erguido com quatro lonas em uma colina de Peguyville.

Na tarde de domingo, um comboio do PMA chegou a Peguyville com uma carga de biscoitos ricos em proteínas, e a distribuição ficou a ponto de virar um tumulto diante do caos provocado pela fome e pelo desespero.

"Nunca anunciamos o lugar onde vamos distribuir comida para evitar tumultos", declarou à Agência Efe o capitão Marco León Peña, do contingente boliviano da Minustah.

Ao contrário do que aconteceu em Peguyville, o capitão Peña está à frente de um destacamento de 80 homens para uma operação de fornecimento de água potável no Champ de Mars, uma grande praça no centro de Porto Príncipe.

Dos 80, apenas dez se encarregam da distribuição da água. Os outros 70 garantem a segurança e ordenam as filas.

Segundo López-Chicheri, "uma distribuição bem-sucedida de alimentos ou água é aquela na qual ninguém sofre danos".

A obsessão da ONU pela segurança de seu pessoal também desacelera as operações de ajuda. Por exemplo, o comboio que levava ajuda para Peguyville hoje foi interrompido e devolvido à base diante de rumores sobre um tiroteio por onde deviam transitar, e só saíram novamente depois da confirmação de que nada acontecia.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegou hoje ao Haiti para avaliar pessoalmente a magnitude dos danos. Ele se reuniu com o presidente do Haiti, René Préval, e com a vice-presidente do Governo espanhol, María Teresa Fernández de la Vega, cujo país exerce a Presidência semestral da União Europeia (UE).

Ban propôs que a UE organize uma missão especial no Haiti, sob o amparo da ONU, para conduzir trabalhos humanitários e de reconstrução urgente em Porto Príncipe.

O terremoto de 7 graus na escala Richter aconteceu às 19h53 de Brasília da terça-feira e teve epicentro a 15 quilômetros da capital haitiana, Porto Príncipe. A Cruz Vermelha do Haiti estima que o número de mortos ficará entre 45 mil e 50 mil.

Na quarta-feira, o primeiro-ministro do país, Jean Max Bellerive, havia falado de "centenas de milhares" de mortos.

O Exército brasileiro confirmou que pelo menos 15 militares do país que participam da Minustah, a missão da ONU no Haiti, morreram em consequência do terremoto.

A médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, ligada à Igreja Católica, e Luiz Carlos da Costa, o segundo civil mais importante na hierarquia da ONU no Haiti, também morreram no tremor. EFE fjo/bba

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