Candidatos no Irã defendem maior diálogo com EUA

Os quatro candidatos à Presidência do Irã, que realiza eleições nesta sexta-feira, disseram em debates na televisão que dialogariam com os Estados Unidos caso fossem eleitos. O conservador Mahmoud Ahmadinejad, que busca um segundo mandato e é conhecido por suas posições duras em relação a Estados Unidos e Israel, disse que estaria disposto a se encontrar com o presidente americano Barack Obama, caso fosse reeleito.

BBC Brasil |

O ex-primeiro-ministro reformista Mir Hosein Mousavi, que lidera as intenções de voto, segundo pesquisas, declarou em uma conferência de imprensa que negociaria com os Estados Unidos, embora tenha dito que não desistiria do programa nuclear do Irã.

Os dois outros candidatos, o ex-chefe da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai, o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi, também declaram em campanhas que dialogariam com o governo americano.

Ambos acusaram Ahmadinejad de guiar a política externa iraniana em terrenos perigosos, com uma posição de confronto contra o Ocidente, especialmente os Estados Unidos.

Portas abertas
Segundo o analista político iraniano Sharif Emam Jomeh, a postura mais amistosa dos candidatos se deve ao fato de Obama ter aberto as portas ao diálogo com países da região, incluindo Irã e Síria, dois países que estavam no isolamento durante a administração do ex-presidente George W. Bush.

"Há uma disposição da população em geral de querer ver o Irã menos isolado internacionalmente. Um discurso amistoso em relação aos Estados Unidos e Ocidente atrairá mais votos", salientou Jomeh.

Entretanto, as posições dos quatro candidatos diferem em como chegar a um maior diálogo com os Estados Unidos.

Mousavi declarou que definitivamente negociaria com o governo americano e que a "paz com qualquer país beneficiaria os interesses do Irã".

Mas ele advertiu que uma reaproximação entre os dois países só seria viável caso Obama mudasse a política americana em relação ao Irã.

"Todos, no entanto, defendem o direito iraniano à tecnologia nuclear, inclusive os reformistas", completou Joumeh.

A administração Obama disse em diversas oportunidades que gostaria de conversar com o Irã, mas também deixou claro que o programa nuclear iraniano e seu programa de mísseis eram uma ameaça na região.

Os Estados Unidos e outros países ocidentais acusam Teerã de tentar desenvolver armas nucleares, mas o governo iraniano alega que seu programa tens fins pacíficos, para geração de energia.

"Mousavi se comprometeu a um diálogo desde que o país não tivesse que pagar altos custos como ser impedido de ter acesso às tecnologias avançadas", explicou Joumeh.

O reformista também condenou os crimes contra judeus durante o Holocausto, dizendo que qualquer matança de pessoas inocentes deveria ser repudiado.

Ele, no entanto, condenou Israel pela "ocupação e mortes de palestinos, e que o mundo deveria agir em prol do povo palestino".

"O discurso de Mousavi por sim só é muito diferente das posições de Ahmadinejad, que em 2005 chamou o Holocausto de mito, causando uma condenação internacional", disse o analista iraniano.

Ahmadinejad
O linha-dura Ahmadinejad recentemente declarou que se encontraria com Obama para discutir interesses mútuos e problemas mundiais nas Nações Unidas.

Segundo Joumeh, esta é uma nova tática do presidente iraniano para amenizar sua imagem de intransigente e conservador.

"Ele quer atingir o público jovem, cansado do isolamento do país perante o Ocidente. Mas creio que isso não convencerá o eleitorado, devido a suas retóricas antiamericanas dos últimos anos, e que causaram enormes danos à imagem do país".

Para o analista, só o fato do conservador Ahmadinejad mostrar interesse em aproximar o Irã dos Estados Unidos já é uma mudança, dado o tabu que existe entre os iranianos sobre as intenções dos americanos.

Em 1953, Washington liderou um golpe contra o democraticamente eleito e popular primeiro-ministro Mohammad Mosaddeq, que buscou nacionalizar as refinarias de petróleo do país.

"O golpe claramente atrasou o desenvolvimento político do Irã, e é por isso que muitos iranianos até hoje se ressentem dos EUA", explicou Joumeh.

Em seu discurso no Cairo, no dia 4 de junho, dirigido ao mundo islâmico, o presidente Obama reconheceu o papel americano no golpe contra Mosaddeq, fato inédito até o momento.

"Esta doutrina antiamericana é a base de Ahmadinejad, e grande parte de seu eleitorado era motivado com discursos inflamados contra os Estados Unidos e Israel. Será interessante ver como ele levará adiante sua nova postura, se for reeleito".

Os eleitores iranianos estão indo às urnas nesta sexta-feira para eleger o próximo presidente do país. Se houver a necessidade de segundo turno, será realizado no dia 19 de junho.

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