Candidato derrotado tenta reverter resultado de eleição no Irã

Por Parisa Hafezi e Fredrik Dahl TEERÃ (Reuters) - O candidato derrotado Mirhossein Mousavi exigiu neste domingo que a eleição presidencial iraniana seja anulada e conclamou a mais protestos, enquanto dezenas de milhares de pessoas saudavam a reeleição do presidente linha-dura Mahmoud Ahmadinejad.

Reuters |

Depois da violência do sábado, os partidários de Mousavi voltaram às ruas no domingo, entrando em choque com a polícia em manifestações de protesto que vêm destacando as divisões políticas expostas pela equilibrada eleição da sexta-feira.

Mousavi, derrotado na votação, disse em um comunicado em seu site na Internet que apresentou uma apelação ao Conselho Guardião, mais alta instância legislativa da República islâmica.

"Eu exorto a nação iraniana a manter seus protestos de forma pacífica e legal no país", disse.

Os partidários de Mousavi distribuíram folhetos conclamando a população a uma manifestação em Teerã na tarde de segunda-feira. Depois do anoitecer, alguns subiram em telhados em toda a cidade, gritando "Allah Akbar" (Deus é grande), ecoando a tática usada por manifestantes na Revolução Islâmica de 1979.

Os distúrbios que vêm abalando Teerã e outras cidades iranianas desde que foram anunciados os resultados da eleição, no sábado, são a maior expressão de insatisfação com o governo da República Islâmica vista em anos.

O resultado da eleição desconcertou as potências ocidentais, que procuram induzir o Irã, quinto maior exportador mundial de petróleo, a limitar seu programa nuclear. O presidente norte-americano, Barack Obama, tinha exortado a liderança iraniana a "descerrar seu punho", para possibilitar um novo começo nas relações.

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, questionou o resultado da eleição, mas disse que Washington está se abstendo de declarar sua posição por enquanto.

"Diante do jeito como estão reprimindo a liberdade de expressão, como estão reprimindo as multidões, e como as pessoas estão sendo tratadas, a impressão que se tem é que há lugar para dúvidas reais", disse Biden no programa "Meet the Press," da rede de TV NBC, quando perguntado se Ahmadinejad vencera a eleição.

UM MAR DE BANDEIRAS

Ahmadinejad apareceu no meio de um mar de bandeiras iranianas vermelhas, brancas e verdes agitadas por partidários que lotaram a praça Vali-e Asr, em Teerã, alguns sentados sobre carros ou telhados, para aplaudir a vitória que ele conseguiu com surpreendentes 63 por cento dos votos.

"Alguns dizem que o voto foi obstruído, que houve fraude. Onde estão as irregularidades na eleição?", disse ele, em discurso pontuado por gritos de aprovação da multidão.

"Algumas pessoas querem democracia apenas para seus próprios fins. Algumas querem eleições, liberdade, uma eleição correta. Eles a reconhecem apenas quando o resultado as favorece", declarou.

Tarverdi Chegine, um funcionário público de 35 anos, disse à Reuters: "Temos um presidente muito corajoso. Eu o amo."

Ele disse que os manifestantes anti-Ahmadinejad não são verdadeiros iranianos. "Eles pertencem ao Ocidente. Pertencem a Bush. Nós somos anti-Bush."

Depois da manifestação, testemunhas viram partidários de Ahmadinejad e Mousavi entrando em choque numa rua principal de Teerã. Um repórter da Reuters viu incêndios e vidros quebrados na rua, pessoas atirando pedras e policiais de choque de motocicleta. Um policial estava espancando pessoas na calçada com um cassetete de borracha.

Cerca de 2.000 estudantes da Universidade de Teerã, alguns com cartazes de Mousavi e outros com os rostos cobertos por bandanas, gritavam palavras de ordem contra o governo e palavras de escárnio contra os policiais da tropa de choque do lado de fora da universidade. Alguns atiraram pedras contra policiais quando estes perseguiram manifestantes que tentavam se reunir diante dos portões da universidade.

Abdul Reza, de 26 anos, que estava atrás dos portões, observando a polícia atacando a multidão do lado de fora, disse: "Mousavi é o verdadeiro presidente do Irã. Ahmadinejad não venceu a eleição."

Falando em coletiva de imprensa, Ahmadinejad descreveu a eleição como tendo sido "limpa e saudável" e descartou as queixas dos candidatos derrotados, dizendo que eles alegaram fraude nas eleições apenas porque não as venceram.

Ele disse que a disputa nuclear iraniana é coisa do passado, assinalando que a política nuclear não será modificada em seu segundo mandato, e avisou que qualquer país que ataque o Irã se arrependerá. "Quem se atreve a atacar o Irã? Quem ousa até mesmo cogitar isso?", disse.

A recusa do Irã em suspender os trabalhos nucleares que o Ocidente desconfia que têm o objetivo de produzir bombas, acusação que Teerã nega, suscitaram especulações sobre possíveis ataques dos EUA ou Israel aos sítios nucleares iranianos.

O chanceler francês, Bernard Kouchner, disse que a repressão aos opositores está fechando as portas do diálogo. "Brutalidade e desenvolvimento militar interminável não trarão soluções", disse ele.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, disse que a Alemanha está acompanhando os acontecimentos no Irã com grande preocupação.

"Estamos observando Teerã com grande preocupação no momento. Houve muitos relatos sobre fraude eleitoral", disse ele, acrescentando que a Alemanha está em contato com outros governos europeus para esclarecer o assunto no menor prazo possível.

"Condenamos resolutamente as ações contra manifestantes. São inaceitáveis," disse Steinmeier à televisão alemã ZDF.

PRISÕES

A polícia deteve mais de 100 reformistas, incluindo um irmão do ex-presidente Mohammad Khatami, disse um líder reformista. Um policial negou que o irmão de Khatami tenha sido detido.

Autoridades do Ministério do Interior rejeitaram as acusações de fraude, e o Líder Supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, a autoridade máxima do país, exortou os iranianos a apoiarem seu presidente.

Um diplomata ocidental sênior em Teerã disse acreditar que as autoridades vão reprimir os distúrbios de rua em breve, mas que a batalha pela reeleição de Ahmadinejad trouxe à tona uma luta de poder polarizadora entre radicais e conservadores moderados, algo que pode afetar a estabilidade de longo prazo da República Islâmica.

"Há turbulência no sistema todo", disse ele.

Um porta-voz de Mousavi disse que seu jornal, o Kalameh-ye Sabz, e o site do jornal na Internet foram fechados. Os serviços de telefonia celular também foram interrompidos em Teerã por vários dias, e a BBC disse que o Irã vem usando "obstrução eletrônica pesada" para interromper as transmissões de seu serviço de televisão em persa, que é amplamente visto.

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